sexta-feira, 26 de agosto de 2011

As fraldas da flexibilidade

Ser mãe é uma excelente oportunidade de aprendizado e de autoconhecimento. Desde que Benjamin nasceu tenho aprendido mais e mais a cada dia sobre mim mesma e sobre a vida.
Uma das grandes lições que tive até agora veio através das fraldas de meu filho. Me explico: sou uma pessoa que, na medida do possível, busca diminuir sua pegada ecológica no mundo. Sou vegetariana, busco consumir o mínimo possível, reaproveitar, reciclar, comprar somente o necessário, entre outras atitudes hoje ditas sustentáveis.
Assim, quando engravidei (e mesmo antes de engravidar) eu SABIA que minha escolha seria pelas fraldas de pano. Quando engravidei, com ajuda de minha mãe e de minha sogra (queridas!), preparei meu estoque. Compramos tecido, cortamos, lavamos, costuramos. Garimpei calças plásticas em várias lojas do Centro da cidade. Pesquisei como dobrar, como tirar manchas, como lavar. Pronto! Era só esperar meu Ben, pois a questão das fraldas estava resolvida. Estava?
Quando Benjamin chegou em casa, o inverno gaúcho chegou junto. Dias e dias chuvosos, muita umidade, ou, quando despontava o sol, o frio era tão brabo que molhar as mãos na água do tanque era sinônimo de dedos congelados. Mas eu TINHA que usar as fraldinhas de pano. Pensava em quanto tempo uma fralda descartável leva para se decompor, pensava em meus princípios, na coerência, no meio ambiente e persistia. Assim foi por um mês.
Foi horrível! A troca tinha que acontecer a cada duas horas, muitas vezes vazava tudo, o tanque ia enchendo de fraldas com cocô pra esfregar, passar sabão de glicerina, água quente, bicarbonato pra tirar manchas e, por fim, deixar de molho em água com vinagre e sabão até encher o balde para colocar tudo na máquina. E o balde enchia... Todo santo dia. E a chuva não parava. E a umidade não cessava. E tudo isso tendo que amamentar um lindo menininho quase o tempo todo. (Esta última parte foi boa, muito boa! rsrsrs!)
Até que um dia me vi esgotada, triste por esperar com ansiedade que meu filho dormisse para ir lavar as fraldas, com as mãos ressecadas e com alergia do sabão...
Fui confrontada com minha sombra (processo que entendi melhor lendo este livro), com aspectos de minha personalidade que mantenho escondidos, que não admito, mas que estão ali, e naquele momento eles gritavam, eles faziam questão de aparecer bem clara e dolorosamente pra mim.
Aline, pra que ser tão orgulhosa? Pra que ser tão dura consigo mesma? Por que ser tão pouco flexível?
Os seres humanos erram, não têm que ser sempre coerentes, têm o direito de voltar atrás, direito de mudar de ideia... Sim, os seres humanos, os outros... EU, não. O que ficou claro nesta minha epifania das fraldas é que muito facilmente sou um general comigo mesma, me cobro muito, me falta jogo de cintura quando o assunto sou eu. E é muito difícil admitir isso tudo, por puro orgulho.
Contudo, a ideia não é me chicotear em praça pública (na verdade, é o contrário). Doeu, foi difícil, mas foi bom.
E então, o foi que eu fiz com tudo isso? Primeiro, meu marido saiu pra comprar fraldas descartáveis (que tenho usado desde então). Este foi o impacto em minha vida prática. Mas foi em minha vida emocional, em termos subjetivos e psicológicos, que esta história se converteu em uma grande lição.
Pode parecer muito bobo tirar um ensinamento disso, porém a "novela das fraldas" me ensinou que eu, como pessoa mas principalmente como mãe, tenho que ser mais flexível. Mães e pais têm que ser "total flex", pois o cotidiano com os pequenos exige isso de nós. Além disso, aprendi que não preciso ser super-mulher, que não tenho obrigação de fazer tudo de modo ideal. O grande lance é priorizar, e eu priorizei estar mais disposta para cuidar de meu filho, ter mais tempo para amamentá-lo e acalentá-lo. O preço foi o lixo do banheiro ter ficado mais pesado. Mas minha vida ficou mais leve.





Fraldas de pano. Quem sabe no verão?


domingo, 21 de agosto de 2011

Benjamin: 3 meses

Hoje nosso filhote completa 3 meses de pura fofura. Ele é BEN lindo, BEN faceiro, BEN tranquilo, BEN esperto, BEN amado,  BEN da gente.
Filho, teu pai e eu sempre adoramos esta canção, mas ela adquiriu mesmo significado quando chegaste em nossas vidas. Assim, a dedicamos a ti, nosso beautiful boy.



BEAUTIFUL BOY
(John Lennon)
Close your eyes
Have no fear
The monster's gone
He's on the run and your daddy's here
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Before you go to sleep
Say a little prayer
Every day in every way
It's getting better and better
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Out on the ocean sailing away
I can hardly wait
To see you come of age
But I guess we'll both just have to be patient
'Cause it's a long way to go
A hard row to hoe
Yes it's a long way to go
But in the meantime
Before you cross the street
Take my hand
Life is what happens to you
While you're busy making other plans
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Before you go to sleep
Say a little prayer
Every day in every way
It's getting better and better
Beautiful, beautiful, beautiful
Beautiful boy
Darling, darling, darling
Darling BEN...

sábado, 20 de agosto de 2011

A Maternidade e o Encontro com a própria Sombra

Alguns livros são mais que livros, eles nos acompanham, aparecem na hora certa e se tornam nossos amigos. Assim foi para mim o livro A maternidade e o encontro com a própria sombra, de Laura Gutman (já publiquei um texto dela aqui). Estava vivendo a quarentena, uma fase ao mesmo tempo linda e difícil, de reconhecimento, descoberta, adaptação... Sentia-me um pouco solitária, um pouco louca, um pouco criança indefesa. Sentia muito, muito amor por meu bebê e só queria saber dele perto, bem perto de mim, sem dar muita atenção a mais nada.
O livro de Laura ajudou-me a entender o que acontecia comigo. Ela diz que é preciso "atravessar o puerpério em um estado de consciência de outra ordem. É preciso que as mães enlouqueçam um pouco, e para isso elas precisam do apoio daqueles que as amam, que lhes permitam abandonar sem risco o mundo racional, as decisões lógicas, as idéias, a atividade, os horários, as obrigações. É indispensável submergir nas águas do oceano do recém-nascido, aceitar as sensações oníricas e abandonar o mundo material”.
Com um texto lindo e sensível, Laura nos convida a vivenciar a maternidade de modo natural e instintivo, a dar ouvidos ao bicho-fêmea que somos, ao mesmo tempo que nos atenta para a enorme oportunidade de autoconhecimento que o maternar pode nos trazer.
Indico este livro para todas as mamães, pois ele lança um olhar amoroso e alternativo a assuntos importantíssimos para o mundo materno, como amamentação, parto e puerpério, sono infantil, introdução de alimentos, desfralde, o papel do pai, entre outros. (Indico-o para os papais também! Vai ajudá-los a entender melhor suas companheiras e a educar com mais consciência seus filhotes.)
Vale cada palavra!





Nas palavras de Laura Gutman:

Este livro foi escrito para mulheres. Não é um guia para mães desesperadas, mas um lugar de descanso na estrada, onde podemos pensar sobre nós mesmas enquanto mães, criando nossos filhos com nosso lado ensolarado e nosso lado sombra, emergindo e expandindo de nossos vulcões internos.
Muitos aspectos escondidos de nossa psique feminina são expostos e ativados com a chegada de nossos filhos.  Estes são momentos reveladores de experiências mística, se formos capazes de experimenta-los como tal, e se tivermos suporte para confronta-los. Esta é uma oportunidade para olhar para as idéias pré-concebidas, os preconceitos e atitudes autoritárias embutidos em nossas opiniões sobre maternidade, criação de filhos, educação, relacionamentos familiares e comunicação entre adultos e crianças.
Nessas páginas encontraremos palavras para nomear o indefinível: os estados alterados de consciência do pós-parto, os campos emocionais em que entramos com nossos bebês, a inevitável insanidade e aquele sentimento de não mais nos reconhecermos. Convido você a pisar comigo nessa estrada, com a liberdade de colher apenas o que possa lhe ajudar ou dar suporte.  Espero que este livro contribua para gerar mais questões, criar mais espaços para a sincera troca entre mulheres e facilitar encontros, comunicação e solidariedade.



sábado, 13 de agosto de 2011

Colo vicia, sim

È verdade o que dizem por aí sobre colo. Colo vicia, sem dúvida.

Não sei se meu filho está viciado em colo. O que posso dizer é que EU sou uma mãe viciada em colo. Sim, eu confesso: não consigo ficar longe dele, amo tê-lo em meus braços, cheirar aquela cabecinha, beijá-lo, abraçá-lo, enchê-lo de carinhos e dengos. Estou muito mal-acostumada. Estou condicionada a acalentá-lo, andar pelo corredor a cantar canções de ninar, balançando o corpo, dançando com ele, a qualquer hora do dia. Dar colo aquece minha alma, preenche meu coração de alegria, faz com que eu me sinta mais forte, mais amparada, mais positiva em relação à vida.
Se eu ficar sem isso, eu choro. Sou uma mãe muito manhosa. Ainda vou dar trabalho...

Benjamin e sua mãe viciada.



Leia mais sobre o vício em colo aqui e aqui.
Texto livremente inspirado neste aqui.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Lactância Selvagem

Como é semana da amamentação, quero compartilhar um dos textos mais lindos que já li sobre o assunto: A lactância selvagem, da escritora e terapeuta argentina Laura Gutman. Adoro ela!

Benjamin, com três semanas de vida, e sua amiga teta.
 A maioria das mães que consultam por dificuldades na lactância estão preocupadas por saber como fazer as coisas corretamente, em lugar de procurar o silêncio interior, as raízes profundas, os vestígios de feminidade e um apoio no companheiro, na família ou na comunidade que favoreçam o encontro com sua essência pessoal.
A lactância genuína é manifestação de nossos aspectos mais terrenais, selvagens, filogenéticos. Para dar de mamar deveríamos passar quase o tempo todo nuas, sem largar a nossa criança, imersas num tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de defender-se de nada nem de ninguém, senão somente sumidas num espaço imaginário e invisível para os demais.Isso é dar de mamar. É deixar aflorar nossos rincões ancestralmente esquecidos ou negados, nossos instintos animais que surgem sem imaginar que ainda estavam em nosso interior. E deixar-se levar pela surpresa de ver-nos lamber a nossos bebês, de cheirar a frescura de seu sangue, de chorrear entre um corpo e outro, de converter-se em corpo e fluidos dançantes. Dar de mamar é despojar-se das mentiras que nos contamos toda a vida sobre quem somos ou quem deveríamos ser. É estar desprolixas, poderosas, famintas, como lobas, como leoas, como tigresas, como canguruas, como gatas. Muito relacionadas com as mamíferas de outras espécies em seu total afeiçoo para a criança, descuidando ao resto da comunidade, mas milimetricamente atenciosas às necessidades do recém nascido. Deleitadas com o milagre, tratando de reconhecer que fomos nós as que o fizemos possível, e reencontrando-nos com o que tenha de sublime. É uma experiência mística se nos permitimos que assim seja. Isto é tudo o que se precisa para poder dar de mamar a um filho. Nem métodos, nem horários, nem conselhos, nem relógios, nem cursos. Mas sim apoio, contenção e confiança de outros (marido, rede de mulheres, sociedade, âmbito social) para ser uma mesma mais do que nunca. Só permissão para ser o que queremos, fazer o que queremos, e deixar-se levar pela loucura do selvagem. Isto é possível se se compreende que a psicologia feminina inclui este profundo afinco à mãe-terra, que o ser uma com a natureza é intrínseco ao ser essencial da mulher, e que se este aspecto não se põe de manifesto, a lactância simplesmente não flui. Não somos tão diferentes aos rios, aos vulcões, aos bosques. Só é necessário preservá-los dos ataques. Nós mulheres que desejamos amamentar temos o desafio de não nos afastar desmedidamente de nossos instintos selvagens. Costumamos raciocinar, ler livros de puericultura e desta maneira perdemos o eixo entre tantos conselhos pretensamente profissionais. Há uma idéia que atravessa e desativa a animalidade da lactância, e é a insistência para que a mãe se separe do corpo do bebê. Contrariamente ao que se supõe, o bebê deveria ser carregado pela mãe o tempo todo, inclusive e sobretudo quando dorme. A separação física à que nos submetemos como rotina entorpece a fluidez da lactância. Os bebês ocidentais dormem no moisés ou no carrinho ou em seus berços demasiadas horas. Esta conduta é um atentado contra a lactância. Porque dar de mamar é uma atividade corporal e energética constante. É como um rio que não pode parar de fluir: se o bloqueia, desvia seu volume. Dar de mamar é ter o bebê no colo, o tempo todo que seja possível. É corpo, é silêncio, é conexão com o submundo invisível, é fusão emocional, é loucura. 
Sim, há que ser um pouco louca para maternar. 

* Conheça o site da autora - http://www.lauragutman.com.ar/.