sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Guest post: Papai escreve sobre doulas

Quem ler meu relato de parto verá que tivemos o acompanhamento de uma doula, a queridíssima Fabiana Panassol.  
O nome "doula" vem do grego "mulher que serve" e indica aquela que dá suporte físico, emocional e espiritual à parturiente. De minha parte, sempre digo que a presença da doula foi essencial para que meu filho chegasse ao mundo da maneira como sonhei. Quando relato minha experiência, observo que muitas gestantes também gostariam de contar com este apoio em seu parto, porém, dizem elas, os maridos mostram-se bastante reticentes com esta "novidade". Muitos dizem que não se sentiriam bem com uma terceira pessoa presente ou argumentam que estão aptos, eles mesmos, a auxiliar a mulher, utilizar medidas de conforto e ampará-la. 
 Comentei isso com o marido que - amado que só ele! - concordou em escrever um texto relatando a importância que a presença da doula teve pra ele no nosso grande dia.  Espero que outros papais leiam e se permitam pensar no assunto sem preconceitos e de coração aberto.

Doula: apoio para a mãe, mas também para o pai.
 De partos e doulas
(por Abramo Luí de Barros, pai do Benjamin)



A sala estava quase às escuras. O grande refletor, intimidante com suas múltiplas lâmpadas, pairava apagado sobre o leito. Silêncio. Nada de palavras em voz alta, nem gritos de incentivo. Um aparelho de som mudo em um canto era um símbolo do ambiente respeitoso, quase sagrado, que havia no recinto. As máquinas, incontornáveis, lá se encontravam, mas seus mostradores e alarmes desligados estavam em sintonia com a quietude do momento. A maca vazia testemunhava uma mulher que perambulava à vontade, seminua a princípio, e depois livre de qualquer coisa que a distraísse da missão para a qual se preparara por nove meses. Havia dor, mas era aliviada pela liberdade de movimentos, pela escolha da posição mais confortável, pela presença solidária dos que estavam à volta e pela expectativa quanto ao pequeno ser que logo chegaria.

E chegou da mesma forma como foi esperado: tranqüilo, sem choro, com os olhos virgens abertos, sem receberem a mágoa de inéditos fachos de luz. Uma comemoração quase em sussurro, mas não pouco emocionada, acolheu Benjamin. Os sorrisos e lágrimas de seus pais, a satisfação da médica obstetra, o entusiasmo das enfermeiras que vieram para torcer, e a alegria serena da doula.

Doula? O homem que se depara com esta palavra provavelmente já está familiarizado com a idéia de parto humanizado. Não preciso aqui explicar as vantagens do parto natural, pois há muita informação de qualidade à disposição. Pela mesma razão posso dispensar-me de definir o que é a doula. O sentimento masculino em relação a estes dois conceitos, tão novos para ele, é bastante diferente.

Normalmente guiado pela busca de sua mulher, o homem é apresentado a um mundo novo de possibilidades para o nascimento de seu filho, e facilmente se torna um adepto desta forma de conduzir a concepção. Somos todos educados pela televisão, pelo cinema, por nossas famílias!, a ver o parto como algo extremamente dolorido, horrível, com grandes chances de apresentar algum problema. É então com alívio que descobrimos que esta é apenas uma maneira de nascer, não a melhor e com certeza não a que queremos para nosso filho.

Começamos assim a ler sobre o assunto, a aprender, a rebater os argumentos contrários dos ditos especialistas, e logo decidimos que estaremos aptos a resolver tudo no dia do parto. Ora, pensamos, para que uma doula? Se eu mesmo posso tomar conta da situação, para que colocar mais alguém no processo? Já escolhemos a dedo um bom obstetra, por que investir dinheiro em uma pessoa que provavelmente vai apenas atrapalhar o serviço médico? Não, não posso aceitar uma intrusa que vai querer influenciar as decisões da mãe e certamente irá competir comigo, homem acostumado a resolver o que é melhor para a minha família.

Infelizmente para nosso orgulho, nós, homens, não podemos resolver tudo. Nosso apoio é importante, a mulher valoriza muito ter em seu marido ou namorado um companheiro de verdade. Mas não basta. O parto é um momento muito feminino para ser completamente compreendido por nós. A maior boa vontade, as conversas, as massagens e outros recursos que tenhamos aprendido não substituirão a cumplicidade que pode existir entre duas mulheres durante o trabalho de parto. O que a mulher busca é alguém com quem ela se identifique, alguém que saiba o que se passa em seu íntimo e que entenda sua dor; alguém com autoridade para dizer que dá para resistir mais ou que é hora de buscar novas alternativas. Isso o homem não pode oferecer; falta a ele, evidentemente, a experiência pessoal de dar a luz.

Além disso, por mais que leiamos e procuremos aprender sobre o nascimento de uma criança, a maioria de nós provavelmente nunca enfrentou um parto. Também neste aspecto nos falta experiência, e de certa forma sempre faltará, pois cada nascimento de um filho será um fato novo. Não temos o distanciamento profissional – que de modo algum é frieza ou indiferença – que a doula possui. Por este mesmo motivo não é possível substitui-la por sua mãe ou por sua sogra, que também ficarão ansiosas com a situação, além de levarem inevitáveis influências das impressões, nem sempre positivas, dos próprios partos que tiveram.

Nosso despreparo pode fazer de nossa presença um incômodo adicional. Acostumados que estamos a querer solucionar os problemas racionalmente, ficamos nervosos com os múltiplos enigmas do trabalho de parto. Há muitos gritos, perdas de fluidos que não sabemos o que significam, falsos alarmes, mudanças drásticas de humor, contrações cada vez mais intensas, sofrimentos aparentemente intoleráveis – é um processo que, como a própria natureza, não segue um planejamento rigoroso, não se desenvolve de forma previsível, não concede qualquer certeza de quando ou como terminará.

A insistência em querer estar no controle da situação nos deixa aturdidos e aflitos, e rapidamente, em vez de mantermos o compromisso prévio de tentar um parto o mais natural possível, começamos a achar mais e mais tentadora a ideia de encerrar tudo de uma vez – com uma anestesia, um indutor de parto, quem sabe até uma cesárea. Assim, além de todas as inseguranças que podem acometer a mulher neste momento crucial, ela tem de lidar também com a nossa insegurança, e nos convertemos em mais um fator de preocupação.

O parto não é uma experiência masculina. Não é a pretensa capacidade analítica nem a força do macho que irão conduzi-lo agora. Em um momento tão feminino, somente uma mão também feminina evitará que o futuro pai seja um mero observador assustado ou sinta-se um intruso. Ele necessita de alguém que gentilmente assuma o comando, com a suavidade e a determinação das mulheres, que sem diminui-lo ou constrangê-lo mostre o papel fundamental que lhe cabe: dar à sua mulher a presença carinhosa e segura que ele sempre proporcionou, sem a preocupação de provar que sabe exatamente como agir. O homem, atordoado diante de tantas coisas acontecendo fora do seu controle, descobre na doula uma guia valiosíssima, livra-se da angústia de não entender como ser útil, afasta-se da obrigação imposta por ele mesmo de fazer alguma coisa, para conseguir aquilo que sua mulher mais precisa: estar ali inteiro, deixando as decisões práticas para quem realmente entende. Ele se torna, de repente, mais que um companheiro aos olhos de sua amada, um homem ainda mais próximo, pronto para compartilhar o futuro, pronto para ser pai.

Minha mulher e eu não filmamos o parto de nosso filho; as poucas fotos que tentei tirar sofreram da falta de iluminação do ambiente e do cansaço do fotógrafo, muito mais interessado em se envolver realmente na maravilha que se descortinava à sua frente que em registrá-la. Não importa: participar como participei daquele momento fez do parto uma experiência ainda mais inesquecível e emocionante do que já é. Meu filho nasceu enquanto sua mãe estava de cócoras, de costas para mim, com meus braços segurando seu corpo. Enfrentamos juntos os momentos mais difíceis e juntos choramos ao ver nosso pequeno Benjamin. Talvez, sem a nossa companheira doula, eu tivesse me contentado em ser somente aquele pai que nos filmes fica nervoso do lado de fora, andando de um lado para o outro com um charuto no bolso.

2 comentários:

  1. Como falei no grupo, que texto lindo! Ficou poético e mostra bem a importância da doula, de permitir que o pai se preocupe só com a mãe e o bebê.
    Vou compartilhar esse texto!!

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  2. Uau! Estou emocionada!
    Abramo: parabéns pelo lindo relato, pelo belo entendimento deste momento tão precioso e pelo desprendimento de compartilhar esta experiência!
    Que família linda e abençoada!
    Ainda quero fazer um encontro incluindo este papais tão maravilhosos...
    Beijão! :)

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