domingo, 18 de setembro de 2011

Mais instinto e menos razão

Colo à vontade...

...mamá sempre que quiser...
...e soninho com a mamãe.
Qual é o mamífero que nega isso para seus filhotes?


"Não pegue muito este menino no colo, ele vai ficar manhoso..."
"Se você deixar ele dormir na sua cama, ele nunca mais vai sair de lá."
"Ele está fazendo seu peito de chupeta, você vai ficar escrava dele..."



Essas são somente algumas frases que uma mãe de primeira viagem (talvez as de segunda e de terceira também) ouve bastante por aí. São conselhos, são preocupaçãoes que as pessoas têm, tudo na maior boa
intenção, sei disso. Mas penso que são reflexo de uma cultura que tem uma visão bastante distorcida dos bebês.

Primeiro, existe uma crença de que as crianças são más. Exagero? Pensem bem. Anda pairando por aí - muitas vezes, infelizmente, sustentada por pediatras - a ideia de que os bebês são manipuladores, de que se aproveitarão dos pais, de que nos escravizarão. É só analisar o discurso contido nestas frases, as quais não inventei; ouvi eu mesma de pessoas amigas, de familiares ou de profissionais da área da saúde.

Segundo, elas estão imbuídas de uma grande preocupação com bem-estar. Com o MEU bem-estar. As pessoas se preocupam comigo, com a minha necessidade de tempo para "fazer as minhas coisas", com minha
necessidade de ficar a sós com meu marido, com as dores na minha coluna, etcetera, etcetera. Não deveriam estar em primeiro lugar as necessidades do ser menor e mais indefeso da díade?

Por fim, percebe-se a noção errônea de que os comportamentos e necessidades dos bebês permanecem os mesmos, indefinidamente, à medida que eles crescem; como se o excesso de colo que dou hoje, a livre demanda na amamentação ou a cama compartilhada serão exigências de meu filho para sempre. Como se não houvesse um desenvolvimento natural e uma modificação e um aumento da complexidade das necessidades de uma criança.

É só observar um bebê pra ver como não é assim que funciona. Tudo muda o tempo todo. É a impermanência na sua face mais prática. O próprio Benjamin, que recém completará 4 meses, já pede bem menos colo que no início, pois, muitas vezes, prefere ficar brincando em seu tapete. Imaginem quando o bebê começa a engatinhar e a andar... Acho que eles devem até fugir de nosso colo, pois tem todo esse mundão de meu Deus pra explorar. É ou não é? Com a amamentação é a mesma coisa, a necessidade de sugar vai diminuir naturalmente, e sei que morrerei de saudade desses momentos só nossos... Então, por que não aproveitar agora? Além do que, acho uma grande inversão esta história de "fazer o peito de chupeta". O que veio primeiro? O peito ou a chupeta? Quem imita quem? Não sou radicalmente contra a dita cuja, mas também não morro de amores por ela. Para mim ela é o ÚLTIMO recurso - quando colo, acalanto, mamá, musiquinha, brinquedo, dança não resolvem, aí eu ofereço a chupeta. Às vezes, Benjamin aceita, às vezes, não. Bem, mas falarei disso em um outro momento...
Quanto à dormir pra sempre na minha cama? Sinceramente, alguém consegue imaginar o Benjamin, já adolescente, chegando em casa e dizendo: "Ô, mãe, chega pra lá que hoje trouxe minha guria pra dormir com a gente." Não, né?

O que quero dizer com tudo isso é que, agora que tenho meu bebê, fico assustada com essas crenças e bem preocupada pelos outros bebês. Pelo que vejo as pessoas estão deixando o racional sobrepujar o instintivo,
em uma relação onde quanto mais deixamos nossos instintos se manifestarem, melhor. Estão agindo pensando muito no depois, como que "cortando o mal pela raiz". Como não poderão dar toda esta atenção pra sempre para os bebês, não devem dá-la agora, para não "acostumá-los mal".

Não creio que seja por aí. Não acredito que meu filho esteja agindo de modo manipulador quando chora pedindo colo; que, de caso pensado, fique mamando em meu peito durante horas, com o intuito de que eu não faça mais nada; muito menos,  acho que ele peça pra dormir conosco só de sacanagem, o pequeno tirano só não quer deixar papai e mamãe sozinhos, mas se viraria numa boa em seu quarto escuro e solitário. Creio que ele está me pedindo o que precisa neste momento; que, por enquanto, desejo e necessidade são a mesma coisa para ele; que, à medida que o tempo passa, ele naturalmente conquistará sua independência, sua autonomia, e precisará cada vez menos de mim. Mas não posso impor isso a ele agora, tão pequetitinho que é. Posso estar errada, minhas escolhas podem ser condenadas por outras mães, por pediatras, por psicólogos... Vou cometer erros, com certeza, como todas as mães. Mas estou tranquila por seguir meus instintos, por sentir e me conectar com meu bebê, por buscar me manter sempre de coração aberto para os pedidos de meu pequeno, indefeso e lindo mamífero.

4 comentários:

  1. Aline, amei o que escrevestes, concordo com tudo que disseste. Como pode as pessoas acreditarem que um serzinho indefeso é manipulador? O meu Vinícius está com 9 meses e meio e eu continuo dando muito colo, muito mamá e muito carinho, tenho certeza que não faz mal nenhum a gente atender sempre as necessidades dos nossos bebês, pelo contrário, acredito que tudo isso os tornarão pessoas muito mais seguras.
    Beijão e parabéns pelo Benjamim.

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  2. Oi Aline! Peguei o link para o seu blog na lista parto humanizado rs.

    Lendo seu texto eu vejo o quanto o inpicio da maternidade foi difpicil para mim, pois eu não conhecia nenhum desses conceitos ainda e sofria muito com frases deste tipo, porque as ouvia de pessoas que me amavam, mas ao mesmo tempo elas iam contra o que meu instinto me mandava fazer.

    Felizmente dei um basta e pude curtir melhor o meu então bebê, que hoje já tem 2 anos e 5 meses. Costumo dizer que somos a prova de que essas frases são besteiras inventadas por interesses contrários à maternidade, pois não são reais.

    Como você disse (e eu comprovei) um dia os bebês passam a dormir várias noites inteiras, deixam de querer estar no seu colo para explorarem o mundo que os cerca, primeiro engatinhando, depois andando e agora mais recentemente correndo!

    O colinho vem, claro, como aquele momento íntimo de chamego, de afeto, e assim espero que seja sempre.

    A amamentação foi dando lugar à alimentação sem traumas e é visível a segurança que estes pequenos cuidados proporcionam ao filho recém nascido. Segurança esta que podemos observar quando eles já estão maiores.

    Beijos,
    Nine
    http://minhapequenaisis.blogspot.com

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  3. Perfeito o teu post! Amei!
    Concordo com tudinho...
    Ninguém se coloca no lugar no bebê (acho que só a mãe) e penso que esse blá-blá-blá de quem está de fora não deva interferir na relação instintiva que existe entre uma mãe e seu bebê mesmo!
    Beijão amiga, especial pro Ben! :)

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  4. Tenho quase vergonha de dizer que eu fazia parte dessas pessoas antes de engravidar. Não lembro de ter "aconselhado" alguma mãe a tomar cuidado com a manipulação do filho, mas eu era do tipo que achava que bebês faziam manha e precisavam de limites.
    Eu sempre fui muito racional e nunca me orgulhei disso. Dai engravidei, e percebi o quanto o amor e o carinho me fazem diferença (sou uma grávida megaaa carente rsrs). O quanto sentir a pele do pai do meu bebê na minha me acalmava, e eu entendi essa necessidade de amor e carinhos dos bebês. E agradeço aos deuses por terem me permitido perceber isso antes do nascimento do pequeno! Com muito tempo para colo, livre demanda e cama compartilhada... sem culpa e com muito amor!

    Post maravilhoso, moça! Vou ali ler seu relato de parto agora ... rsrs bjss

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