sábado, 5 de novembro de 2011

Palmada educativa ou violência contra a criança?



Há alguns dias começou a movimentar a blogosfera um livro que, já no título, mostra a que veio: Tapa na Bunda - Como impor limites e estabelecer um relacionamento sadio com as crianças em tempos politicamente corretos, da educadora infantil (que medo!) Denise Dias.
Não, eu não comprei este livro, nem vou comprar. Este post não é uma dica de livro e, sim, uma pequena reflexão sobre este assunto, que mexe muito comigo. Vamos a ela, pois.

"Violência é uma coisa..."
Sei que as pessoas costumam relativizar a respeito disso. A violência sempre é praticada pelos outros. Violência infantil é espancar, mutilar, queimar uma criança com cigarro... Mas, ora, uma palmada e um puxãozinho de orelhas não fazem mal a ninguém; são até necessários para que a criança nos entenda e obedeça...
Eu não concordo com isso. Sim, existem níveis diferentes de violência, mas tanto o tapinha quanto o tapão são atos violentos. É estranho que essa gradação, tão aceitável quando falamos de nossas crianças, não ocorra quando se trata, por exemplo, de violência contra a mulher. Ninguém anda por aí (ainda bem!) defendendo a palmada educativa nas esposas que não se comportam. Por que com criança pode?
Isto não pode. (Ainda bem!)
Por que isto pode?


"Eu levei muita palmada quando criança e me criei, sobrevivi."
Um discurso que me irrita um pouco é este do "sobrevivemos". Eu não sei vocês, mas desejo que meu filho seja mais que um "sobrevivente". Quero que ele seja feliz, realizado, que tenha boas recordações de sua infância, que seja uma boa pessoa, solidária, gentil, compassiva e empática. E acredito que o modo mais fácil de chegar a este resultado é por meio do exemplo. Se ele sentir isso em casa, se perceber que seus pais se esforçam para compreendê-lo, para enxergar o mundo pelas lentes de seu olhar infantil - que está descobrindo e tentando desvendar este Universo pleno de novidades - ele vai, naturalmente, agir assim com as pessoas. Se não lançarmos mão de violência para lidar com ele, ele não aprenderá a ser violento.

"Um dia ele vai te tirar do sério..."
Eu não tenho dúvida disso. Um dia ele vai me testar, vai fazer birra, vai teimar... Ele vai me tirar do sério, sim, assim como de vez em quando minha família, meus amigos e até meu marido fazem. E eu nunca dei um tapa em nenhum deles por causa disso.

"Mas criança precisa de limite."
Eu concordo com isso. Mas isso acontece naturalmente. Obviamente, não deixaremos nosso filho fazer tudo o que quer, pois ele poderá se machucar, machucar outras pessoas, ficar doente, estragar objetos que não são dele, desrespeitar os outros, blá, blá, blá... A lista de coisas que são vetadas às crianças é enorme! Isso não é dar limite? Além disso, a autora cita a "falta de limites" (que ela entende como falta de tapa na bunda) como o fator responsável por "uma geração de delinquentes adolescentes". Aqui não caberia uma reflexão mais aprofundada? Não seria a falta de presença dos pais e o excesso de crianças "terceirizadas" um dos fatores responsáveis por tanta revolta e delinquência?


"Criança não entende conversa."
Tratar as crianças como bichinhos adestráveis também faz parte do modus operandi da criação de filhos há gerações. Se fizer o que a gente quer, ganha uma recompensa. Se não fizer, tapa na bunda. É bem fácil, né? Realmente funciona. A agressão física dói tanto, é tão humilhante, que a criança tenta não repetir mais o tal comportamento indesejado. Pra que dialogar, explicar, considerar e respeitar a criança? A vida é assim: manda quem pode e obedece quem precisa!
O livro de Denise Dias: um retrocesso.

Afff! Me deu uma tristeza saber desse livro...
Eu poderia falar muito mais sobre isso. Como eu disse, esse é um assunto que mexe muito comigo. Ainda me lembro da sensação de perplexidade, da humilhação e da dor (muitas vezes mais emocional que física) que senti nas vezes em que apanhei quando criança. É difícil admitir isso. Amamos tanto nossos pais que ansiamos por justificá-los, nem que isso signifique reproduzir os erros deles. Não podemos culpá-los, é verdade. Por gerações e gerações, "umas boas palmadas" foram o modo de educar. Assim, não precisamos de livro idiota nenhum para nos ensinar a utilizar-se de tapas para educar nossos filhos. É só fazer o que sempre se fez...
Por isso tudo, para que o cenário mude, é preciso que cada pai e cada mãe busque, lute, peça por discernimento e serenidade para fazer diferente. Não sei ainda como será quando meu pequeno crescer, só sei que não quero nunca ultrapassar esta fronteira sem volta que se chama agressão física. Gostaria muito que fossem publicados mais livros que me ajudassem nesta difícil tarefa. A Editora Matrix (que, paradoxalmente, parece não ter saído da Matrix) decidiu fazer o contrário: dar vez e voz a ideias primitivas, fomentando a violência e o desrespeito com as crianças, e, o que é pior!, vendendo isso como se fosse a coisa mais revolucionária do mundo. Lamentável!

Para ler a entrevista da autora, clique aqui.

3 comentários:

  1. Oi, Aline!
    Li seu texto no final de semana, mas minha internet é o ó...não publicou, afe!

    Adorei mais um texto contra a violência infantil! E gosto muito da sua comparação com a violência contra a mulher - que é adulta. Se essa não pode e todo mundo concorda (quase), por quê ensinar as crianças com agressão, né?

    Adorei seu comentário no blog!
    Seguimos juntas no desafio de educar sem violentar!
    Beijos,
    Nine

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  2. Oi, Aline! Cheguei ao teu blog através do grupo parto humanizado. Conheci a Fabi quando morava em Porto Alegre e fizemos uma parceria através do blog, o selo ao lado é de minha autoria e adorei vê-lo por aqui. Outra hora passo para ler mais posts, meu bebê tá me chamando...
    Beijos

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  3. Perfeito, Aline!
    Não tinha conhecimento deste livro, fiquei chocada com o título, só imagino o conteúdo...
    Ligar limite com palmada não é o caminho. Há tantos outros melhores caminhos (claro que dão mais trabalho), mais eficazes e amorosos, para dar limites aos nossos filhos!
    Sei bem que não é fácil, o desafio é diário...
    Obrigada pelo post!
    Beijão! :)

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