sábado, 3 de dezembro de 2011

Por que fazemos cama compartilhada?

Atuar contra a natureza como espécie conduz irremediavelmente à perda do bem-estar.
(Tine Thevenin, in The Family Bed)




Hoje quero falar de um assunto polêmico no mundo da maternagem: a cama compartilhada, a prática de dormir com os bebês. Sei que é um tema cercado de preconceitos. Eu e meu marido, antes de engravidar, sequer imaginávamos a possibilidade de, quando tivéssemos filhos, deixá-los dormir conosco.
Durante a gravidez começamos a repensar, a nos informar sobre a prática, mas as dúvidas pipocavam: e não é perigoso? E o risco de sufocamento? E não tem que ensinar o bebê a ter o espaço dele? E se ele não aprender a dormir sozinho? E? E? E?
...E eis que chega Benjamin, fazendo-nos rever conceitos e abandonar preconceitos. Nos primeiros dias, ele dormiu no carrinho ao lado de nossa cama. Acordava para mamar (o que é o mesmo que dizer acordava toda hora) e depois voltava para o carrinho.
Cansaço, olheiras, mamãe dormindo sentada e com medo de deixar a cria cair no chão... Até que, passados alguns dias, Benjamin à noite começou com aquele choro de cólica (ou que se diz ser de cólica, agora nem sei mais...). Chorinho doído, dor profunda, tadinho... Massagens, acalanto, passeio... a fralda tá limpa? Tá. Será que é fome? Não. Então tomamos A decisão: Vamos colocar ele aqui com a gente. Lembro que Abramo esquentou a bolsinha térmica e deitei Ben a meu lado, barriga com barriga, a bolsinha entre nós dois. E dormimos. Os três.
A partir daí, esta começou a ser a nossa prática. Esquentamos a bolsinha mais algumas noites, depois vimos que não precisava. O choro não era de dor, era de saudade. Estando a nosso lado, sentindo nosso calor e nossa presença, Benjamin não chorava. Hoje quando digo que não passamos NENHUMA noite em claro com ele ninguém acredita.
Acabamos nos informando mais sobre o assunto e nos tornando adeptos da prática da cama compartilhada. Não somente por ser uma delícia. Não somente por ser mais prático. Não somente por sermos uns dorminhocos preguiçosos. Mas porque é nosso instinto, porque nos sentimos mais seguros e, last but not least, por contribuir fortemente para o sucesso da amamentação.

Sobre a questão instintiva, não preciso dizer muito. É só olhar em volta e observar o mundo mamífero. Filhotes e pais dormindo juntinhos, emboladinhos, em um sono gostoso e restaurador. Isso contribui muito para o vínculo entre os pais e o bebê, pois quanto mais próximos ficamos de nossos filhotes, maior a nossa capacidade de entender o que eles nos comunicam, compreender sua linguagem.

A respeito da segurança, nos sentimos mais seguros tendo nosso filho perto de nós do que dormindo sozinho em outro quarto. Se engasga, eu socorro. Se está descoberto, cubro. Se puxa o lençol por cima, tiro. Como ficamos mais conectados ao nosso bebê acabamos acordando ao menor sinal de que ele não esteja bem. Pelo menos comigo acontece assim. Outra razão pró-cama compartilhada é que, segundo alguns especialistas, com a respiração dos pais (inspirando oxigênio,liberando gás carbônico) o bebê é estimulado a respirar sempre (porque, lembremos, eles não respiravam na barriga). Assim, diminuem as chances de uma Síndrome da Morte Súbita, por exemplo.
É claro que se deve observar algumas normas de segurança ao compartilhar a cama com o bebê, como certificar-se de que seu colchão é firme e liso e que os lençóis estejam seguramente ajustados; não dormir com o bebê se tiver consumido álcool, alguma droga ou medicação ou se for fumante; e evitar camisolas ou pijamas com laços e cordões longos. Mas é tudo bem simples, né?

Por fim, tem o aspecto amamentação. A cama compartilhada é ouro para o aleitamento em livre demanda. Enquanto a mãe dorme há um aumento na produção de leite, pois os níveis do hormônio prolactina (responsável por esta produção) são maiores durante a noite. E o "coquetel" hormonal não para por aí: altas doses de ocitocina, o hormônio do amor, atuam na "descida" do leite, e endorfinas fornecem prazer e tranquilidade.
Mas no cenário do bebê dormindo em um berço em outro quarto, a coisa ocorre de um jeito um pouco diferente: entra em cena a adrenalina, hormônio que não combina nada com noites tranquilas de sono. Sabe por quê? Porque a mãe tem que acordar, sair do quentinho da cama, para ir atender a um bebê que provavelmente já está bem acordado e, mais provavelmente ainda, chorando. Esta mãe tem que fazer um grande esforço para manter-se acordada enquanto amamenta. Tem que ajudar o bebê a adormecer novamente, sendo grande o risco de choro quando se faz a transferência do colo quente da mãe para o berço gelado.Até que ela consegue fazer o bebê dormir, sai do quarto pé ante pé, deita em sua cama... e sofre, pois dentro de poucas horas começa tudo de novo! Não é à toa que muitas mães, podres de cansaço, acabem caindo na tentação de dar um "NAN-feijoada" para a criança dormir a noite toda, pois, a longo prazo, uma rotina assim acaba sendo muito massacrante. E aí encontramo-nos a um passo do desmame precoce: para que a prolactina (lembra dela?) seja produzida são necessárias as mamadas noturnas. Sem mamada, nada de prolactina, nada de leite. "Meu leite acabou, e agora?" Entenderam o drama?

Ok, tudo muito bom, tudo muito bem. Mas e a intimidade do casal, coméquefica? Pela minha experiência, fica muito bem, obrigada. Pode-se deixar o bebê no bercinho nanando enquanto os pombinhos namoram, ou se pode desbravar outros espaços da casa. Ajuda, inclusive, a sair da rotina, é ou não é? Se o casal se ama e quer ficar junto, sempre se dá um jeito...

Bem, amig@s, era mais ou menos isso que eu tinha pra dizer. Sei que a cama compartilhada está longe de ser unânimidade entre mamães e papais, e eu respeito as escolhas de cada um, na boa. Contudo, quis escrever este texto pois vejo que outros tantos papais e mamães gostariam de trazer seus filhotes para dormir junto com eles, porém não o fazem por medo, por preconceito, por causa das opiniões dos outros ou por "n" inúmeras razões que nada têm a ver com seus desejos e escolhas pessoais. É para essas pessoas que escrevi este post.

Eu poderia falar mais, porém prefiro indicar algumas leituras bem mais informativas e didáticas do que sou capaz de fazer.
Dormindo com bebês - Texto muito bom de Alysson Muotri, biólogo do blog Espiral
Grupo Soluções para Noites sem Choro
Cartilha da UNICEF Partilhar a cama com seu bebê - Um guia para mães que amamentam

Não deixem também de assistir a esta animação do site The Food of Love sobre as diferenças entre os sistemas "cada um na sua" e "tudo junto reunido". É muito fofo! É só clicar no link.

Breastfeed in your sleep

Depois de tudo isso, alguém ainda pode me perguntar: "E se ele nunca mais sair da sua cama?" Quer saber? Não estou nem um pouco preocupada. Quero mais é sentir o bafinho de leite e o cheirinho de meu Ben perto de mim o tempo que der. Sei que vai passar, sei que ele não vai ser pra sempre o meu "agarradinho", então o negócio é aproveitar!

Ilustração Mama is...Comic

Um comentário:

  1. Cara Aline, nós tambem praticamos a cama compartinhada, é bem gostoso, porem o Ilah agora está mais grande e gosta de virar para todo lado, temos pasado algumas noites desconfortabeis!!

    Eu acho que a preocupação de dividir a cama com o bebé é bastante urbana, como te contei alguma vez,lá nas minhas montanhas as pessoas nem falam sobre o tema, bebé dorme junto aos pais, ponto, não existe um dilema sobre o tema, não existe debate. As sociedades rurais são assim, as crias junto da mãe o tempo todo.

    Entendo as mães que querem independencia, ser mamãe mamifera é cansativo e lindo ao mesmo tempo. Agora, acho legal dizer que um colchão mais grande ajuda, e que o bebé pode aprender a ficar em seu cantinho da cama, aprender a dividir espaço. o ilha tem seu colchão perto do nosso e fica nele as vezes, quando está doentinho prefer a nossa cama.

    Agora, com o tema de que o bebé fica dependente posso dizer que no caso da gente o Ilah cada vez quer mais seu espaço, passa tempão brincando sozinho e agora mama na noite, acaba, se vira de costas!!! e dorme, as vezes pede para me retirar um poquinho porque o danado é espacioso..

    Cama compartinhada é o maximo!!! Sou mamãe canguru y adoro!!

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