domingo, 5 de fevereiro de 2012

Das ambivalências


 
Dizem por aí que ser mãe é padecer no paraíso. Nunca entendi muito bem esse ditado e sempre considerei-o um tanto exagerado. Até agora.
Ser mãe é padecer no paraíso, sim, pois é, a um só tempo, a missão mais difícil e mais maravilhosa que se pode ter na vida. A mais doída e a mais gratificante. A mais complexa e a mais simples. É uma loucura. Mesmo. É tudo ao mesmo tempo agora. Sofrimento e prazer. Alegria e tristeza.
Se, por um lado, você se olha no espelho e não se reconhece - pele ressecada, cabelo mal-tratado, unhas por fazer -, por outro, você sabe que nunca antes na história de sua vida teve razão mais forte para vivê-la.
Se, antes, você era uma mulher ativa, moderna, dona de seu nariz, agora você é fonte de alimento, calor e cuidado para um ser humano, tendo perdido completamente o controle sobre o que quer que seja. Contudo, quando, finalmente, você consegue uma "folga" para sair sozinha, para ter uns minutos só seus, sente-se vazia, não sabe o que fazer com os braços, já tão acostumados a embalar a cria, fica sem graça e tudo ao redor perde um pouco da cor.
Você antigamente estudava, lia jornais, ia ao cinema com frequência, frequentava exposições de arte... era um bom papo. Agora, você desenvolveu uma espécie de dialeto dissílabo - cocô, xixi, mamá, papá - e, por mais que seus amigos considerem uma grande chatice, este assunto único no qual se especializou fascina você como nenhum outro, é o mais interessante do mundo.
E você se sente solitária, pois Maternar é uma escolha sua, e você não pode falar com ninguém de seu cansaço, de suas dúvidas, de seus medos sob a pena de que dedos acusadores sejam apontados em sua direção: "Viu? Eu disse que era loucura parar com tudo/ que não devia dar tanto colo/ que tinha que acostumá-lo a dormir sozinho/ que tinha que impor horário para amamentar/ que tinha que dar chupeta" e por aí vai. Então você se resigna a fazer cara de paisagem, a responder automaticamente que tudo vai bem, obrigada. Porque as pessoas não vão entender. Se você falar de suas dores, pensarão que você não está feliz, quando, na realidade, você nunca foi tão feliz em toda sua vida.
Complicado, né? Isso é ser mãe. Experiência das mais ricas, plena de dores e delícias.
E depois de desabafar, chorar, se descabelar, depois de desejar, nem que só por um dia, almoçar com calma e fazer xixi de porta fechada, de querer nem que seja por um instante (e em segredo) ter a sua vida de volta, você olha para o lado e vê surgir, cheio de luz e amor, o sorriso mais lindo que pode existir. Você vai até seu filhote e colhe-o nos braços, aconchega-o em seu peito e ele mama seu leite, segurando em sua mão, olhos nos olhos...
Você é uma Deusa. E está no Paraíso.

2 comentários: