sábado, 18 de fevereiro de 2012

Mamãe exibicionista responde...


 Sob o título Amamentar em público e em qualquer lugar. Tem que poder. Mas precisa?, uma moça chamada Letícia González  afirmou em uma matéria de uma revista de mulherzinha, versão online, querer iniciar um sério debate sobre "quando é ´ok´ amamentar e quando é 'demais' amamentar". Em tempos em que se necessita fazer campanhas massivas pró-amamentação e em que as mulheres amamentam cada vez menos (o Rio Grande do Sul, Estado onde vivo, tem um dos piores índices de amamentação, com média de 23 dias), acho uma matéria como essa um desserviço por colocar a lactante em uma posição muito chata: a de mulher que constrange, que se exibe desnecessariamente, por mostrar os peitos em público para quem não quer ver.
Bem, eu li a matéria, óbvio, e respondi. Porém, como mais de 500 pessoas responderam, o que escrevi (não que seja grande coisa...) vai se perder lá no meio de tantas opiniões. Assim, resolvi publicar aqui no blog, caso alguém queira ler. Lá vai!
Fiquei espantada com este texto. Não sei se é maluquice ou hipocrisia... Ninguém coloca em discussão se é "ok" ou se é "demais" a exposição do corpo da mulher na mídia, em reality shows, propagandas, capas de revista, carnaval... Mas uma mãe amamentar um filho em público pode constranger ou (pasmem!) fazer alguém perder o apetite. Acho, Letícia, que faltou um pouco de cuidado de sua parte no uso das palavras.
Além disso, você está ciente das recomendações da OMS a respeito da amamentação?
"A Organização Mundial de Saúde recomenda, para a população em geral, que os bebês recebam exclusivamente leite materno durante os primeiros seis meses de idade. Depois dos seis meses, com o objetivo de suprir suas necessidades nutricionais, a criança deve começar a receber alimentação complementar segura e nutricionalmente adequada, juntamente com a amamentação, até os dois anos de idade - ou mais.
Para fazer com que as mães consigam amamentar exclusivamente, até os seis meses, a OMS e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) recomendam ainda: 1) iniciar a amamentação nas primeiras horas de vida da criança; 2) amamentação exclusiva, ou seja, o lactante recebe apenas leite materno, sem nenhum outro alimento ou líquido, nem mesmo água; 3) que a amamentação aconteça sob demanda, ou seja, todas as vezes que a criança quiser, dia e noite; 4) não usar mamadeiras nem chupetas." 

(Fonte: Organização Pan-americana de Saúde)

Pois bem... Se uma mulher quer amamentar o seu filho, sendo este o padrão ouro de alimentação do bebê (não é que seja o melhorzinho, se der fórmula, tudo bem; leite materno é "A" opção, o que não for isso é algo menor e só deveria ser utilizado em caso de impossibilidade da mulher de amamentar, o que é raro), o que ela deveria fazer? Ficar, no mínimo, 6 meses trancada em casa para não constranger ou não tirar o apetite de ninguém? Buscar o banheiro mais próximo cada vez que o bebê sentir fome? Quem defende isso gosta de comer no banheiro? Por que o bebê tem que gostar?
Além disso, a OMS recomenda que a amamentação ocorra em livre demanda, ou seja, sempre que o bebê quiser. Quem já teve um bebê sabe que isso pode ser a cada cinco minutos, ou pode ser quase o tempo todo (o meu bebê em seus primeiros tempos era assim, e mesmo agora, aos 9 meses, ainda necessita bastante do mamá).
E até o momento, só falei na questão nutricional. Contudo, não se pode deixar de lado o aspecto emocional. Amamentação é um ato de amor, é estreitamento de vínculos entre a mãe e o bebê, é proteção, é comunicação entre os dois. Estar junto ao seio da mãe é estar em casa, é ter a segurança de estar protegido, mesmo em um ambiente que pode não ser muito amigável para o pequeno, como um restaurante barulhento, um ônibus ou um shopping center.
Meu medo é que tudo isso se perca, pois amamentar está virando raridade, talvez por nossa sociedade ver este ato - tão sublime, tão carinhoso, tão essencial para mãe e bebê - cada vez mais como algo constrangedor, fruto do exibicionismo de uma mulher que quer a todo custo deixar os seios à mostra em público (porque é a primeira coisa que nos vem a cabeça quando o bebê chora, não sabiam? Tem gente olhando? Peitão neles!).
É uma pena! Se mais bebês fossem amamentados, no futuro, penso eu, existiriam menos adultos perdendo o apetite ao ver uma mãe alimentando seu filho. (E talvez os terapeutas tivessem menos clientela...)


Ilustração: Heather Cushman-Dowdee, mamífera, mãe de 4, autora das tirinhas Mama is...comic

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