terça-feira, 6 de março de 2012

Dr. González fala sobre alimentação infantil

Hoje o Dr. Carlos González, com muito humor, nos fala de alimentação dos bebês, este tema que angustia muitas mães. É uma palestra meio longa, mas vale a pena parar um tempinho para assisti-la ou então ler a transcrição já traduzida em português logo abaixo. É interessantíssimo!




Trascrição e tradução do vídeo do Dr. González sobre introdução de alimentos


Venho falar sobre a alimentação infantil, que é um tema que preocupa muito as mães e eu nunca tinha falado antes para uma platéia com um percentual tão baixo de mães, mas não tem problema, porque aproximadamente 100% foram filhos e portanto vão reconhecer o tema.

Muitas mães e alguns pais estão preocupados porque os filhos não comem. Me contava uma mãe outro dia: não come nada, absolutamente nada, eu ponho um prato de fusilli e só come 1. Ué, a senhora não disse nada? Um não é igual a nada. Se um e zero fossem iguais, como os informáticos poderiam trabalhar?


Outras mães estão preocupadas, e às vezes nós médicos também estamos preocupados, e às vezes até fonoaudiólogos, porque cada vez vemos mais crianças que com 2 ou 3 anos não mastigam, que comem tudo, absolutamente tudo triturado. E é curioso porque a mesma mãe que com 9 meses diz: que grande é minha menina, que bem come toda a sua papinha, aos 2 anos diz: parece mentira, uma menina tão grande comendo ainda papinhas. Então, o que concluimos, é grande ou não é grande, é boa ou não a famosa papinha. E se você não quer chegar a esse destino, o melhor é não empreender esse caminho, e portanto do que venho falar hoje é de uma alimentação complementar livre de papinhas, uma alimentação complementar à demanda em que a criança possa comer o que quiser, exatamente como fazemos nós os adultos e a maioria de nós não temos problemas.


O problema é que na Espanha, costumam-se dar umas normas sobre alimentação complementar que são obsessivas, beirando a paranóia. Uma mãe me mostrou o típico papel impresso que recebeu. Um xerox do xerox do xerox, às vezes você encontra xerox de coisas escritas a máquina, coisas da era paleolítica. Ela havia recebido do posto de saúde, imagino que vocês já viram muitas coisas parecidas: aos não sei quantos meses, às 9 da manhã 120ml de leite com não sei quantas colheradas de não sei que cereal sem glúten. Às 13h, 50g de batata com 50g de cenoura com 50g de ervilha com não sei o que. À tarde, meia pera e meia maçã. As peras e as maçãs curiosamente sempre vão por metade, não sei porque não te dizem os gramos, já que o tamanho da pera e da maçã são muito distintos, essa é uma falha do sistema. A partir de não sei quantos meses às 2ªf e 4ªf, 50g de frango.


Conheci um pobre senhor que, não sei se seu filho já era grandinho, eu sei que o pediatra disse 85g de frango. O que acontece é que, claro, você pega 100g de frango e tenta tirar 85g, você pode errar então ele começou a ir todos os dias ao açougue para comprar 85g de frango. Imaginem a cena: ponha por favor 85g de peito de frango picado, então o açougueiro diz: melhor ponho 100g né? Não! 85! Que são para o menino.


Às 3ªf e 6ª f, 50g de carne e a partir de não sei quantos meses, meia gema de ovo em dias alternados que a partir de não sei quantos meses vai merecer uma gema de ovo inteira. A fruta è às 5 da tarde, como os touros. As mães me perguntam quanto tempo duram as frutas sem perder suas propriedades, as propriedades da fruta, que agora já estamos em crise, ninguém tem propriedades mais!



Vejamos, se quer triturar a fruta, que não recomendo, mas se quiser, o que importa o quanto duram se com o mixer num instante já estão trituradas? “Mas é que a fruta è às 5 e nessa hora tenho que buscar o mais velho que sai da creche, então tenho que levar a fruta no tupperware para dar ao bebê às 5.



Mas ela não pensou que a fruta pode ser às 4:30 ou às 5:30? Mas ela não pensou que se está tão a fim de dar alguma coisa às 5 que pode dar uma bolacha, que é mais fácil de transportar e a fruta, ela pode dar de manhã ou à noite? Pois não, porque o médico ou a enfeimeira disseram que era às 5: meia pera, meia maçã, meia banana e o suco de meia laranja. Se a avó estiver por perto, temos que acrecentar meia bolacha Maria.



Tem gente que diz: são mães obssessivas! Não, por favor, são mães normais! Eu acredito que são pediatras obsessivos. Porque se você vai ao médico e te dizem: você tem que tomar 12 unidades de insulina, você não vai tomar 11 nem 13, e sim 12 porque assim disse o médico e se ele disse assim é porque esse é o tratamento correto. Você tem o direito de esperar que quando um médico te diz 12 é porque são 12 e quando um médico te diz que a fruta é às 5, é porque a fruta è às 5.


O papel esse que lhes eu estou contando são 4 páginas contínuas de calendários, horários, gramas e minutos, ao final punha: atenção, as horas são aproximadas. Mas se são aproximadas, melhor não por! Como mínimo, mínimo, melhor por café da manhã, almoço, lanche e jantar e assim teria evitado muitas angústias. E que importa que a fruta seja no café da manhã ou no lanche? Eu acabo de tomar o café da manhã num hotel e comi fruta, paella, frios...A capacidade do homem tomar café da manhã é ilimitada porque temos que acreditar que sempre temos que tomar cereais no café da manhã?


Àquela mãe eu respondi: se a senhora em lugar de ter um filho normal tivesse um marido diabético (que Deus não permita!), um endocrinologista não teria dado este tipo de instruções. A um diabético não se diz se são 50g de frango, a um diabético não se diz que a fruta é às 5 da tarde. Inclusive, uma pessoa que realmente necessita uma dieta medicamente controlada não se dá esse nível de detalhe. E, no entanto, com a alimentação infantil nos encontramos com isso, provavelmente porque com a alimentação infantil continua-se recomendando mais ou menos da mesma maneira, talvez por tradição, que há 80 anos provavelmente porque naquela época, os bebês se não mamavam no peito e os bebês ricos não tomavam peito, porque isso era coisa de pobre, também não tomavam o leite nós temos na farmácia, fabricado por uma multinacional. Em seu lugar, o leite se preparava em casa, ainda em inglês esse leite se chama fórmula, tantos ml de leite fervido em casa, porque também não se vendia o leite pasteurizado, com tantos ml de água, com tantos gramas de açúcar e você já tem a fórmula do menino. Sem vitamina c, sem ferro, sem vitamina d, as crianças pegavam escorbuto. Então era necessário dar-lhes alimentos muito preparados, o suquinho de laranja, porque a fruta fazia com que suas gengivas sangrassem por causa do escorbuto, era preciso dar-lhes o fígado, que tem vitamina d, principalmente o fígado de bacalhau. E assim se chegou a dar as primeiras papinhas com menos de 1 mês, a única maneira de dar a alguém tão pequeno a comida é metendo dentro da sua boca, não tem outro jeito.


Agora sabemos que não é necessário começar tão cedo, entre outras coisas porque os senhores fabricantes de leite já acrescentaram essas vitaminas aos seus produtos e porque os bebês já não tomam a mesma mamadeira de antes. E aprendemos que os que são amamentados nunca precisaram dessas coisas e agora se recomenda começar aos 6 meses. Só que estamos começando aos seus meses da mesma maneira que quando se começava às 4 ou 5 semanas, tomando muitas precauções, com um estrito controle médico, medindo os gramas e os mililitros e enfiando a comida na boca do bebê, que é a coisa mais angustiante do mundo.


E é curioso como que tantos bebês, que enfiam tudo na boca, enfiam as canetas, as chaves do carro, os papéis, não tem mães que não tenha tido que tirar papel da boca do filho. Enfiam tudo na boca menos a comida. Ao ver a colher, começam a chorar. Qual experiência teve que viver um bebê, para ser capaz de meter na boca qualquer porcaria, menos o que se come?


É preciso entender qual o objetivo da alimentação infantil, ou seja, por que damos aos bebês outras coisas além do peito? Por quê não podemos dar o peito a vida inteira. “Ah, mas é que eu adoro amamentar, eu lhe daria o peito a vida inteira!” Mas, não é possível porque se você amamentar a vida inteira, a sua mãe vai ter que vir te amamentar e a sua avó vai ter que amamentar a sua mãe. E algum momento a corrente se rompe, além de que amamentar a vida inteira quer dizer a sua vida inteira ou a vida inteira dele?


E com a mamadeira, não poderíamos dar mamadeira a vida inteira? Bom, na mamadeira não porque fica feio, quem quiser que beba num copo. Vamos um pouco por esse caminho, ou seja, existe o leite número 2, depois o leite de crescimento, depois tem um período que a indústria ainda está procurando o que enfiar, mas já existe leite para mulheres com menopausa, e temo leite com pouca lactose, sem lactose, leite meio vegetal...Essa coisa do leite é como um câncer no supermercado, que vai se espalhando e fagocitando o resto dos alimentos. E vai se deslocando, cada vez existem mais leites e mais tipos. Esses leites de crescimento, leites com cálcio extra, leite de soja, não estão desenhadas para que uma pessoa só tome leite, estão desenhadas para que coma outras coisas e também leite. Sempre se pode comer outras coisas e não tomar leite, não tem problema.

É possível fabricar um leite que não seja necessário nada mais? Um leite para crianças de 5 anos, de 10 anos, para senhores de 50 anos? Sim, por que não? Por que a partir dos 5 anos, sei lá, não tem suficiente cálcio. Põe mais cálcio. É que a partir dos 20 anos, precisa de mais fósforo. Então põe mais fósforo. Isso são coisas baratas. Não custaria nada que houvesse um comitê internacional de especialistas de nutrição que diria o que tem que comer exatamente cada um segundo sua condição física, segundo sua idade, segundo seu estado. Existiria um leite para mineradores, um leite para esportistas, um leite para caminhoneiros, um leite para grávidas, um leite para mães que amamentam. Eu iri ao supermercado e diria: escuta, vocês tem um leite para pediatras entre 50 e 60 anos? “Xi, esse acabou! Se o senhor quiser, temos o leite para ginecologistas” Ah, mas os ginecologistas fazem mais esforço físico para tirar o bebê, não pode ser o mesmo leite! “Na semana que vem recebemos o leite para pediatras, com certeza!” Com um leite assim que tivesse tudo, as pessoas tomariam sempre a quantidade exata de colesterol que necessitam, a quantidade exata de sal, de açúcar,. Não existiriam pessoas com problemas de colesterol, de pressão alta, de diabetes, poderíamos viver 100 anos. Por que não fazemos isso? Por quê se é para comer assim, se é para comer um copo de leite de café da manhã, dois no almoço, um de lanche e um na janta, e de repente, no Natal eu me permito meio copo de leite com sabor turrón (doce típico de natal espanhol). Se é pra viver assim, 100 anos comendo merda, não quero viver 100 anos.



Preferimos comer comida normal, preferimos comer paella ou coelho com alho e óleo ou tortilla de batatas, ainda que às vezes isso nos leva as equivocarmos. E isso faça com que às vezes alguns tenham obesidade, outros hipertensão, outros tenham colesterol e outros açúcar. Mas, que caramba, nós que vamos viver nesse vale de lágrimas que desfrutemos um pouco. E queremos ter esse privilégio de comer comida normal e tomar nossas decisões e queremos o mesmo para os nossos filhos. Não queremos que nossos filhos mais velhos tomem o leite multimedia nem a pílula os astronautas que já tem de tudo. Queremos que possam comer comida decente.


Então o objetivo da alimentação infantil não é nutricional, não se trata dar ao bebê coisas que o leite materno não tem. A única coisa que teríamos que acrescentar, em todos os casos, a partir de certas idades, seria o ferro. A maneira mais fácil de dar ferro a um bebê não é dando frango, que tem ferro sim. Mas se o problema fosse ferro, o pediatra não diria: a partir de agora, comece a dar frango, comece a dar carne. O pediatra diria: a partir de agora, além do leite materno, dê algumas gotinhas de ferro por dia. Porque o frango, sabe Deus se come, se não come, se faz uma bolo e depois cospe. O mais seguro é dar as gotas, você está segura que engoliu. Com o peito e ferro já lhe basta por toda a vida.


E com a mamadeira, não custa nada fazer um leite com mais ferro, é facílimo. Portanto, o objetivo, quando você dá comida aos bebês não é nutricional é educacional. Nós lhe damos outros alimentos porque tem que ir aprendendo a comer normal. É preciso pensar no objetivo a médio e a longo prazo: o quê eu quero que coma meu filho quando tiver 2, 3, 5, 7 anos. Quero que ele coma comida triturada, e que eu tenha que lhe dar e que tenha que tapar o seu nariz para abrir a boca e que tenha que fazer o aviãozinho com a colher e por os Teletubbies para que se distraia? Conheci uma mãe que lhe punha o Baby Einstein. Já tinha entendido que não lhe tornava mais inteligente, mas para comer funcionava de maravilha.


Se você não quer chegar a isso, não se meta por esse caminho. A criança para aprender a comer normal precisa que lhe demos comida normal. E o que poderia ser muito simples, muito fácil de aprender aos 6, aos 8 ou aos 10 meses se converte em algo muito difícil aos 2, aos 3 ou aos 4 anos. Que, ao fim, aprendem todos, isso com certeza. Todos, ao final, comem. Quando me encontro com as mães que se meteram nesse caminho, que já tem crianças de 3 anos que não mastigam nada, que quando encontram um pedaço sem triturar na papinha, vomitam tudo, que começam a chorar e já não comem mais o resto do dia, então eu lhes digo: não se preocupe que isso se vai ajeitar por si mesmo. “Meu filho vai terminar o ensino médio?” Não sei, tem gente que não termina o ensino médio. “Meu filho vai entrar na universidade?” Mais difícil ainda. Meu filho vai mastigar algum dia? Claro que sim, por favor, isso todo mundo faz! Então, aconteça o que acontecer eu sei que seu filho vai mastigar um dia. Vai mastigar se a senhora fizer tudo certo e vai mastigar se fizer tudo errado. Assim que se, só por via de dúvidas, não faça nada, e assim não se arrisca a fazer tudo errado. O que eu chamo de fazer errado: criticar a criança, zombar dela, por de castigo, dar bronca, ridiculizá-lo. Existem coisas não só faz a mãe, mas que contribui toda a família, que vem para o Natal e sempre tem um engraçadinho que diz: menos mal que o fulaninho não come presunto porque assim sobra mais para os outros. Por favor, não é para humilhar a criança dessa maneira. Se ninguém diz nada para a criança, não há problema. A pergunta não é: com que idade vai mastigar meu filho, o problema é o que vamos fazer de agora até que ele mastigue, se vamos fazer nós todos, principalmente a criança, felizes ou infelizes.


Agora, quando ainda você está a tempo não se meter por esse enrosco, o que eu digo às mães é: ofereça comida comum e corrente. Não estou dizendo: que coma a papinha que tem que comer e depois pode fazer bagunça com a comida. É que não tem que comer nenhuma papinha. É que simplesmente você tem que deixar a comida ao seu alcance. Você tem a criança no seu colo enquanto você come, basicamente porque senão é assim ele não te deixa comer, porque começa a chorar. A criança está nos seu colo, você está comendo, as coisas que por sua idade ainda não pode comer, você deixa longe, as coisas que pode comer, ficam perto. E cedo ou tarde, ele vai tentar pegar alguma coisa e vai por na boca. Essa criança que pega uma ervilha e a leva à boca está aprendendo. Aprende a pegar com a mão, parece uma bobagem, mas chama-se psicomotricidade fina e me parece mais importante. Aprende a por na boca, que é preciso acertar o buraco, aprende a notar os distintos sabores e texturas dos distintos alimentos, aprende a tomar decisões: cenoura, ah, não gosto, frango, sim, engulo. Isso espanta os pais: ui, mas então só vai comer o que gostar! Pois claro que sim! Quem come o que não gosta é tonto! Mais tarde, você vai ao restaurante, pega o menu e pede o que gosta. “Ei, traga-me o bacalhau que me dá muito nojo”. Não, você pede o que você gosta! E é importante que a criança aprenda a comer o que gosta porque quando tiver 15 anos e vá por primeira vez com seus amigos a comer por aí, vão entrar numa pizzaria e se te ligar para perguntar: mamãe, de que eu peço a pizza vai ficar ridículo. Tem que ser capaz de dizer: quero de presunto. Aprende a tomar decisões, aprende a mastigar mesmo que não tenha dentes, um pedaço de pão, uma ervilha, um pedaço de cenoura fervida, aprende a deglutir sólidos e aprende, sobretudo que comer é algo agradável, que tinha vontade de comer e sua mãe, que era muito legal lhe deixou.



Por outro lado, a criança a qual lhe metem uma colher enorme de papinha de verduras na boca enquanto fazem o avião, ou enganando com a chupeta, sabem: “Toma a chupeta, ele tem um reflexo, colher, oops, engoli, chupeta, oops, colher, engoli de novo.” Até que a criança aprende a deixar de engolir no momento que lhe tiram a chupeta da boca. Essa criança que come a papinha inteira não aprendeu nem a comer com a mão, nem a abrir a boca nem a mastigar nem a engolir, nem a tomar decisões, porque vão enfiar goela abaixo tanto faz se ele quer ou não quer, nem a deglutir nem absolutamente nada. E ainda por cima, como comeu uma quantidade absolutamente enorme, estará pior alimentado porque essa papinha só de verduras não tem proteínas, não tem gordura, apenas tem vitaminas, essa é uma água suja, por favor, isso é operação biquíni, menos leite e mais verdura. Por outro lado, uma criança que apenas vai come um par de ervilhas, um pedaço de frango e uns dois macarrões, como depois vai tomar muito leite estará muito mais alimentado.



Tradução de Bel Kock-Allaman
Publicado na Comunidade Meu Filho não Quer Comer do Facebook

Um comentário:

  1. Muito bom!!

    Estou adorando essa "semana Carlos González" hehehe

    Por aqui, sempre fui muito tranquila quanto a alimentação. Nunca tivemos problemas.
    Sempre respeito sua preferência por frutas e menos por legumes.
    Mas as pessoas insistem "ele tem que comer brócolis" e eu sempre digo "mas ele não gosta de brócolis!".

    É como se a criança não fosse uma pessoa, como se não tivesse "querer ou gostar"

    Beijo!

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