sábado, 10 de março de 2012

Por que o bebê chora quando a mãe sai do quarto ?

 Está quase terminando a nossa Semana Carlos González. Hoje, com vocês, um texto que explica por que razão os bebês, sobretudo recém-nascidos, choram quando ficam sozinhos em seus quartos. Boa leitura!

Sem a mamãe.

Com a mamãe.

O imediatismo é uma das características do pranto infantil que surpreende e aborrece algumas pessoas. "Basta deixá-lo no berço que começa a chorar como se estivessem matando-o".
Para alguns especialistas em educação, esta constitui uma característica desagradável do caráter infantil e o objetivo é vencer seu “egoísmo” e “teimosia”, ensinar-lhe a atrasar a satisfação dos seus desejos. Por que razão não tem um pouco mais de paciência, por que não pode esperar um pouco mais ?
Poderíamos compreender que, 15 minutos depois de a mãe partir, começassem a ficar um pouco inquietos; que meia hora depois começassem a choramingar e que duas horas mais tarde chorasse com todas as suas forças. Isso pareceria lógico e razoável. É isso que nós, adultos, fazemos, assim como as crianças mais velhas, depois de termos “ensinado” a ser pacientes, não é verdade ? Mas, em vez disso, os nossos filhos pequenos começam a chorar com toda a força enquanto se separam da mãe; choram ainda com mais força (o que parecia ser impossível !) cinco minutos depois e apenas deixam de chorar quando ficam exaustos. Não parece lógico!
Mas é lógico. Começar a chorar imediatamente é o comportamento “lógico”, o comportamento de adaptação, o comportamento que a seleção natural favoreceu durante milhões de anos, porque facilita a sobrevivência do indivíduo. Numa tribo, há 100.000 anos, se um bebê separado da mãe chorasse imediatamente a plenos pulmões, a mãe provavelmente iria buscá-lo de imediato. Porque essa mãe não tinha cultura nem religião, nem conhecia os conceitos de “bem”, “caridade”, “dever” ou justiça”; não cuidava do filho por pensar que essa era a sua obrigação ou porque temia a prisão ou o inferno. Muito simplesmente, o choro do filho desencadeava nela um impulso forte, irresistível, de acudi-lo e confortá-lo. Mas se um bebê se mantivesse calado durante 15 minutos e depois chorasse baixinho e apenas chorasse a plenos pulmões em 2 horas, a mãe poderia estar longe demais para ouvir.
Esse grito tardio já não teria qualquer utilidade para a sua sobrevivência, contribuindo, pelo contrário, para acelerar o seu fim. Porque agora, os gritos de angústia de uma cria abandonada seriam música para os ouvidos das hienas.
Além disso, se refletirmos um pouco, veremos que esse comportamento que nos parece “lógico” e “racional” perante a separação da pessoa amada, esperar um pouco e aborrecer-se gradualmente, apenas é adotado pelos adultos quando esperam confiantemente o regresso da pessoa ausente. Imagine que a sua filha de 15 anos está na escola. Durante o horário escolar, você não sente qualquer preocupação relativamente a essa separação, porque sabe perfeitamente onde ela se encontra e quando vai regressar (o seu filho de 2 anos saberá onde você se encontra e quando você volta? Mesmo que lhe expliquem, não consegue compreender). Se passarem 30 minutos da hora em que deveria chegar em casa, certamente você começará a sentir os primeiros temores (“o ônibus atrasou”, “deve estar conversando com os amigos”). Se se atrasar mais do que 1 hora, começará a aborrecer-se (“estes filhos, parece mentira, são uns irresponsáveis, pelo menos podia ter telefonado, foi para isso que lhe comprei o celular”). Se ela se atrasar 2 ou 3 horas, você começará a telefonar para as amigas, para ver se ela está na casa de alguma. Se 5 horas depois ainda não tiver aparecido, você estará chorando, ligando para os hospitais, porque pensa que foi atropelada. Depois de 12 horas, chorará cada vez mais, irá à polícia, onde lhe vão explicar que muitos adolescentes fogem de casa por qualquer motivo, mas quase todos voltam dentro de 3 dias. Durante 3 dias, você vai agarrar-se a essa esperança, mas cada vez chorará mais e, ao fim de 1 semana, será a imagem viva do desespero.
Mas imagine agora que tem uma grande discussão com a sua filha de 15 anos, na qual se proferem censuras e insultos graves e, por fim, ela mete alguma roupa velha numa mochila e grita “odeio você ! Odeio, estou farta desta família, vou embora para sempre, não quero ver você nunca mais”e vai-se embora, batendo a porta. Quantas horas espera alegre e despreocupadamente antes de começar a chorar ? Não começará a chorar ainda antes que ela saia de casa, não a seguirá pela escada, não correrá atrás dela pela rua, não tentará agarrá-la sem temer dar espetáculo na frente dos vizinhos, não se porá de joelhos à frente dela e suplicará, não se deterá apenas quando a exaustão a impedir de continuar a correr ? Parece-lhe que comportar deste modo possa ser “infantil” ou “egoísta” da sua parte ? Acha que ouviria os vizinhos dizerem “olha que mãe mais mal-educada, nem há 5 minutos que a filha foi embora e já está chorando como uma histérica. Certamente faz isso para chamar a atenção”? Sim, é fácil ser paciente, quando se está convencido de que a pessoa amada vai regressar. Mas não se mostrará tão paciente quando tiver dúvidas a esse respeito. E quando tiver certeza absoluta de que a pessoa amada não pensa em voltar, não será absolutamente nada paciente desde o início.
Não precisa esperar 15 anos para viver uma cena como a descrita. A sua filha já se comporta assim agora, quando você vai embora. Porque ainda é muito pequena para saber se você vai regressar ou não, ou quando vai regressar, ou se vai estar perto ou longe. E, por acaso, o seu comportamento automático, instintivo, aquele que herdou dos seus antepassados ao longo de milhares de anos, será começar a pensar sempre no pior. Cada vez que se separa de você , a sua filha irá chorar como se a separação fosse para sempre. (E o que dizer das mães que pretendem “tranqüilizar” os filhos com frases do estilo “se não se comportar, a mamãe vai embora” ou “se não se comportar, não gosto de você”?).
Dentro de 3, 4, 5 anos, à medida em que vá compreendendo que a mãe vai voltar, a sua filha poderá esperar cada vez mais tranquila e durante mais tempo. Mas não será por ser “menos egoísta” nem “mais compreensiva”, e muito menos porque você, seguindo os conselhos de qualquer livro, ensinou-lhe a adiar a satisfação dos seus caprichos.
Os recém-nascidos necessitam do contato físico. Provou-se experimentalmente que, durante a primeira hora depois do parto, os bebês que estão no berço choram 10 vezes mais do que aqueles que estão nos braços da mãe. Ao fim de alguns meses, é provável que se conformem com o contato visual. O seu filho ficará contente, pelo menos durante algum tempo, se puder ver a mãe e se ela sorrir-lhe ou falar com ele de vez em quando. Há 100.000 anos, as crianças de meses provavelmente nunca se separavam da mãe, porque isso significava ficarem no chão nus. Atualmente, estão bem protegidos num local macio, e, mesmo que o instinto lhe continue a dizer que estarão melhor no colo, são tão compreensivos e têm tanta vontade de fazerem-nos felizes que a maioria se resigna a passar alguns minutos na cadeirinha. Mas, assim que você desaparecer do seu campo visual, o seu filho começará a chorar como “se estivessem matando-o”. Quantas vezes se ouviu uma mãe dizer esta frase! Porque efetivamente a morte foi, durante milhares de anos, o destino dos bebês cujo pranto não obtinha resposta.
É claro que o ambiente onde criamos nossos filhos é atualmente muito diferente daquele em que evoluiu a nossa espécie. Quando você deixa seu filho no berço, sabe que ele não vai passar frio ou calor, que o teto o protege da chuva e as paredes, do vento, que não será devorado por animais selvagens; sabe que estará apenas a alguns metros, no quarto ao lado, que acudirá prontamente ao menor problema. Mas seu filho não sabe disso. Não pode sabê-lo. Reage exatamente como teria reagido um bebê do Paleolítico. O seu pranto não responde a um perigo real, mas a uma situação, a separação, que durante milênios significou invariavelmente perigo.
À medida em que vai crescendo, seu filho irá aprendendo em que caso a separação comporta um perigo real e em que caso não tem importância. Poderá ficar tranquilamente em casa enquanto você vai às compras, mas começará a chorar se estiver perdido no supermercado e pensar que você voltou para casa sem ele…
O pranto de nada serviria se a mãe não estivesse também geneticamente preparada para lhe responder. O pranto de uma criança é um dos sons que provoca uma reação mais intensa num adulto humano. A mãe, o pai e mesmo os desconhecidos sentem-se comovidos, preocupados e angustiados; sentem um desejo imediato de fazer algo para que o choro pare. Amamentá-lo, passear com ele, trocar a fralda, pegá-lo no colo, vesti-lo, despi-lo; qualquer coisa, desde que se cale. Se o pranto for especialmente intenso e contínuo, recorre-se ao pronto socorro (e muitas vezes com bons motivos).
Quando nos é impossível calar um pranto, a nossa própria impotência pode converter-se em irritação. É o que acontece, quando se ouve chorar noutro andar: as convenções sociais impedem-nos de intervir e, por isso, a situação é particularmente aborrecida para nós (“Mas o que estão pensando aqueles pais ?” “Não fazem nada?", “Aquele menino é um malcriado, os nossos nunca choraram assim !”). Muitos vizinhos criticam pelas costas ou repreendem as mães cujos filhos choram “demais” e alguns chegam até a bater na porta para protestar. Várias mães já me disseram: “O médico disse que o deixasse chorar porque chora sem razão; mas não posso fazer isso porque os vizinhos reclamam.” Com a mesma intensidade sonora, uma criança que chora num edifício incomoda-nos mais do que um trabalhador que martela um som de heavy metal.
Quando as normas absurdas de alguns especialistas impedem os pais de responder ao choro da forma mais eficaz (pegando o bebê no colo, tocando-lhe, cantando, amamentando-o…), que outra saída nos resta? Pode deixá-lo chorar e tentar ver TV, cozinhar, ler um livro ou conversar com o seu companheiro, enquanto ouve o pranto agudo, contínuo, dilacerante do seu próprio filho, um pranto que atravessa as paredes e pode prolongar-se por 5, 10, 30, 90 minutos ? E quando começa a fazer ruídos angustiantes como se estivesse vomitando ou sufocando ? E quando deixa de chorar tão de repente que, em vez de ser um alívio, imagina a criança parando de respirar, ficando branca e depois azulada? Estarão os pais autorizados a correr para o lado do filho ou isso seria considerado como “recompensá-lo pela choradeira” e até disso estão proibidos?
A outra opção é tentar acalmá-lo, mas sem pegar no colo, embalar ou amamentar. E porque não também com uma mão amarrada nas costas, para tornar a tarefa ainda mais difícil? Ou ligar ou rádio, rezar ou oferecer-lhe dinheiro?
Um especialista, o Dr. Estivill, propõe que lhe digamos o seguinte (a uma distância superior a um metro, de modo que os pais não toquem na criança): “Meu amor, mamãe e papai te amam muito e estão ensinando você a dormir. Dorme aqui com seu boneco… Até amanhã.”
Palavras de consolo e de amor verdadeiro que certamente acalmariam qualquer criança, seja qual for a causa do seu pranto, a partir de 6 meses ! Ainda que talvez nem mesmo o autor destas palavras acredite muito na sua eficácia tranquilizadora, pois adverte os pais que, uma vez pronunciadas, devem ir-se embora, mesmo que a criança continue a chorar e a gritar (a mal agradecida).
Em muitos países os maus tratos são um problema. Dezenas de crianças morrem todos os anos nas mãos dos próprios pais e muitas sofrem hematomas, fraturas, queimaduras… A pobreza, o álcool e outras drogas, o desemprego e a marginalidade contam-se entre as causas dos maus tratos. Mas também é necessário um catalisador. Por que bateram na criança hoje e não ontem? O pranto é um catalisador freqüente. “Chorava sem parar e não consegui suportar mais”. O que podem fazer os pais quando tudo o que serve para acalmar as crianças (peito, colo, canções, agrados) está proibido?
Do livro Bésame Mucho
Publicado no site Gravidez e Maternidade
Revisão: Aline Pereira de Barros
Não tenho os créditos de tradução. Se alguém souber de quem é, por favor, informe-me pelos comentários.

Nenhum comentário:

Postar um comentário