quinta-feira, 15 de março de 2012

Tem lugar pra gente?



Cena 1 - Um casal, em virtude da comemoração do aniversário do marido, decide ir almoçar  em um tradicional restaurante, localizado no Mercado Público de Porto Alegre. Queriam há muito experimentar este lugar e era dia de festa, então juntou-se a fome e a vontade de comer. Lá foram os três. Ah! Esqueci de dizer que o casal este da história tem um bebê, um lindo bebê de 9 meses, o qual eles procuram incluir, tanto quanto possível, em todas as atividades de suas vidas. Assim, era óbvio que o bebê participaria da comemoração. O casal chega ao lugar, fila de espera, restaurante cheio. "Tem cadeirinha para o bebê?" "Tem sim, senhor." Ok, decidem esperar. Após alguns minutos chega a vez deles. Entram, se acomodam, o garçom traz o cardápio. "O senhor, por favor,poderia me trazer uma cadeirinha para o bebê?" "Desculpe, senhora, mas A cadeirinha está ocupada. Mas assim que desocupar, eu trago para a senhora." O casal fica meio chateado... "Puxa! Eles só têm uma cadeirinha? Mas, tudo bem, daqui a pouco ela vem, vamos pedir, a fome tá grande!" E o casal faz o pedido. E vem a entrada, e vem o prato principal, e vem a sobremesa e vem o cafezinho...E a cadeirinha? A cadeirinha não veio nunca.

Cena 2 - Uma mãe sai de casa com seu bebê. Para chegar ao destino pegam um ônibus daquela que é considerada pela Associação Nacional dos Transportes Públicos "a melhor empresa de ônibus urbano do país". É uma linha que eles usam sempre e a mãe não tem reclamações. Os cobradores e motoristas são sempre muito gentis e dizem que mamãe e bebê devem descer pela porta da frente. Na verdade é algo óbvio, se formos analisar a situação: além do bebê, a mãe geralmente carrega uma bolsa ou mochila com roupinhas, brinquedos, água, lanche, fraldas para o bebê. É impossível sair sem este kit. Para conseguir dar conta de carregar tudo isso sozinha, a mãe leva o bebê em um carregador de bebê ou sling. É ou não é difícil passar pela roleta? Pois bem, voltando ao nosso fatídico dia, chega a hora de a mãe descer e ela paga a passagem e diz à cobradora: "Eu prefiro descer pela frente, tudo bem?" "Não tem preferir, a senhora tem que passar a roleta", a cobradora responde de um jeito ogro plus. "Mas quem pode sentar nestes bancos (os bancos amarelos reservados a deficientes, idosos, gestantes, obesos e pessoas com crianças no colo, que ficam na parte da frente do ônibus), não pode descer pela frente?" "Só os isentos." "Grávida é isento?" "Não, mas grávida tem dificuldade para passar a roleta." "E eu não?" "A senhora tem que passar na roleta, como todo mundo. Regras da empresa." A cobradora vira o rosto e passa a ignorar a mãe. A mãe olha para o motorista, que também faz cara de poucos amigos. A mãe decide passar a roleta, não sem dificuldades. Desce do ônibus sentindo-se desrespeitada e humilhada. Horas depois liga para o 0800 da empresa para fazer uma reclamação e verificar a veracidade da tal regra: "Senhora, sentimos muito, mas é esta mesmo a regra da empresa, imposta pela EPTC. Na verdade, deixar a mamãe com bebê descer pela porta da frente vai muito da boa vontade do cobrador". A mãe se sente como Blanche Dubois, personagem de Um Bonde chamado Desejo, a qual "sempre dependeu da bondade de estranhos".

Cena 3 - Duas amigas, ambas mães de bebês, decidem almoçar fora. Elegem, para isso, o mais antigo restaurante especializado em comida vegetariana da cidade, um que fica ali no Bom Fim, frequentado por dezenas de famílias todos os domingos após o tão porto-alegrense passeio com chimas pelo Brique da Redenção. Para facilitar nossa narração, vamos chamar os personagens de Mamãe 1, Bebê 1, Mamãe 2 e Bebê 2. Bem,então estavam os quatro almoçando, se divertindo, conversando... O lugar tinha cadeirinhas para os dois bebês. É claro que sim, este é um restaurante super família. Não é como aquela lá da Cena 1, mais frequentado por casais e adultos em geral. Nãããão! Aqui vem um monte de crianças... Tava tudo muito bom, tudo muito bem, até que Bebê 1 manifestou vontade de fazer cocô. Bebê 1 tem uma peculiaridade: ele não gosta de fazer cocô na fralda. Sempre que quer fazer cocô, Mamãe 1 tem que levá-lo até o trocador, tirar a fralda e esperar que ele faça cocô, ou então colocá-lo no peniquinho. (Alô, você, pessoa sem bebês, que esquece que já foi um e, às vezes, esquece até que tem mãe: os bebês são pessoas e tem suas peculiaridades, ok? Desculpem, não resisti a este parêntese.) Além de todo kit supracitado na Cena 2, obviamente a mãe não consegue carregar também um penico, certo? Então vamos levar Bebê 1 ao trocador. Mamãe 2 diz: "A gente sempre vem aqui, nunca precisei de trocador, mas deve ter com certeza... Muitos bebês vêm aqui." Ela estava enganada. Não tinha trocador. Mamãe 1 vai com Bebê 1 até o atendente, que também parece ser um dos donos do restaurante, e relata o problema. O homem responde de forma grosseira: "Usa o banco ali no corredor (local onde ficam a entrada e a saída do restaurante, ou seja, com intenso movimento de pessoas). Todo mundo faz isso, ué." Como assim? Um bebê não tem o direito à privacidade? Um bebê tem que se sujeitar a ficar nu, a fazer cocô na frente de todo mundo? Não seria a mesma coisa que, ao perguntar pelo banheiro em um estabelecimento, lhe respondessem: "Não tem banheiro, não. Mas faz ali no cantinho. Todo mundo faz assim, ué"? Resumo da ópera: Mamãe 1 + Bebê 1 e Mamãe 2 + Bebê 2 foram embora no mesmo instante. (Não se preocupem. Neste estabelecimento a conta é paga antes de almoçar, então elas saíram correndo, mas não sem pagar a conta. Elas são mães indignadas, mas não foras-da-lei.) Foram embora tristes, desenxabidas... Gostavam muito daquele restaurante que oferece comidinha verde, orgânica, gostosa e bem feita. Mas a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e respeito a nós e a nossos bebês.



Infelizmente, essas não são histórias de ficção.Em um intervalo de 10 dias, as três aconteceram comigo ou com pessoas muito próximas a mim. Isso me fez refletir. Nossa cidade (nossa sociedade?) está pronta para acolher nossos bebês? Esses foram casos isolados? Acho que não. Se paro pra pensar, me dou conta que muitos dos restaurantes que costumava frequentar não têm estrutura para que eu leve meu filho. E, gente, quando falo estrutura, não estou querendo um "espaço baby" com brinquedos e recreacionistas. Estou querendo uma cadeirinha e um trocador. Isso é pedir muito? O que eu entendo que eles me dizem quando não tem essas coisas? Bebês não são bem-vindos, é o que entendo. Não temos espaço pra eles, não oferecemos o mínimo que eles precisam para ser atendidos dignamente: um lugar para sentar e um espaço privado para trocar suas fraldas. Vai ter gente que vai dizer: "Restaurante não é lugar de criança mesmo. Elas fazem barulho, atrapalham quem quer comer descansado. Quem quer ter filhos que fique em casa." Infelizmente, tem muita gente que pensa assim. Acho que isso vai ao encontro de tudo que se diz por aí sobre incluir, aceitar, tolerar diferenças. É tão egoísta, tão pequeno. Acho equivalente a dizer que restaurante não é lugar de idosos, pois eles andam devagar e demoram muito no buffet; ou então que não é lugar de obesos, pois eles ocupam muito espaço e comem demais, para não citar outros exemplos.
Quanto à norma da EPTC em relação às roletas, descobri que nem mesmo as gestantes estão liberadas de passá-las. Só existe uma norma no que diz respeito aos obesos, com IMC igual ao superio a 30: "Estará autorizado o embarque pela porta dianteira do ônibus, não transpondo a roleta, desde que pague o valor da tarifa." Contudo, gestantes e mães com bebês não poderiam ser incluídas nesta mesma diretriz? A norma não está errada? Se você também acha que sim, reclame lá.
Gostaria de acrescentar que nós, mães, somos um público consumidor e merecemos respeito. Não pagamos menos, não temos desconto por estarmos com um bebê no colo. Assim, temos o direito de ser respeitadas. Vamos fazer valer esse direito, vamos fazer nossa voz ser ouvida. Vamos pedir trocadores nos restaurantes. Vamos escrever cartas para os legisladores. Vamos fazer barulho! O maravilho projeto Cinematerna (do qual Benjamin e eu somos frequentadores fieis) nasceu assim: um grupo de mães que queria ir ao Cinema com seus bebês. Elas se organizaram e 10 mães com seus bebês - entre 20 dias e 4 meses de idade - "invadiram" um cinema. Mais mães foram se juntando ao grupo. Alguns meses depois, uma rede de cinemas acolheu-as e hoje é uma inciativa maravilhosa que está se espalhando pelo Brasil. Elas conseguiram. Nós também podemos!


Sim! Nós podemos!
Você sabe de algum lugar Baby Friendly ou Family Friendly em Porto Alegre? Indique aqui nos comentários. Vamos divulgar!

5 comentários:

  1. Oi Aline!
    Muito conveniente este teu post! Confesso que apesar de ainda ser gestante já tive a oportunidade de constatar que nossa cidade não é nada Baby Friendly or Family Friendly. A maioria dos lugares faz questão de deixar claro que nossos pequenos não são bem vindos! O pior é que não precisamos nem ir tão longe para perceber uma mudança completa de atitude, já morei 3 anos em Buenos Aires e lá via que a infraestrutura e própria cultura do povo assegurava o direito de ir, vir e desfrutar dos mais variados ambientes com o mínimo de conforto para as famílias. Aqui tudo parece muito difícil, falta conscientização nesse sentido e pior ainda é como você mesma disse viver dependendo da bondade de estranhos!
    Há vários meses atrás, lá no comecinho da gestação fiz um post sobre algo bem parecido:http://gravidasdenovelanaoexistem.blogspot.com/2011/10/somos-mal-educados-sim.html
    Beijos e parabéns pelo Blog! ;)

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  2. oi Aline. Ja passei por isso sim e tive que trocar o Vicente em cadeiras, com a bundinha exposta para todos verem. Nao fiquei com vergonha,mas preferiria 1000 vezes que o lugar tivesse um ambiente para o meu bebe!
    Sou advogada e faco muitas audiencias,ja estou trabalhando,pois sou autonoma. Levo meu filho comigo,pois quero dar peito antes da audiencia e depois,claro,levo a baba junto. Mas em nenhuma justica tem banheiros com trocadores. Me perguntei porque nao teria se ha muitas maes que vao em varias justicas do Brasil procurar seus direitos, e muitas, levam seus pequenos. Porque entao nao ter trocadores nas justicas?Eu chuto o balde e troco dentro da sala da OAB mesmo,nao to nem ai. Mas como eu disse,gostaria muito de poder ter o minimo para o meu pequeno bebe!beijos 1000,meus e do Vi( 3 meses e 3 semanas)

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  3. Aline, belíssimo post!

    Em Porto Alegre e em Viamão também já tive diversos problemas.
    Quando estava grávida tinha que "suplicar" para descer pela frente (minha barriga era muitíssimo grande, eu não passaria na roleta mesmo que quisesse!), tanto em Poa quanto em Viamão.
    Cansei de ter que ficar nas filas esperando pois não havia caixa preferencial em alguns estabelecimentos (ou eram mal controlados).

    Quando minha sogra vem a Poa, vamos geralmente, almoçar num shopping. É raro encontrar cadeirinhas e, a coisa que eu acho mais absurda é que, no Barra Shopping, por exemplo, você ainda tem que alugar o tal do carrinho (ainda bem que shopping não é um lugar ao qual vamos sempre).

    Vários estabelecimentos não tem fraldário e nem menos um trocador. E muitas vezes quando tem, estão em péssimas condições.

    Infelizmente, não conheço nenhum lugar pra divulgar. Mas, vou acompanhar para descobrir!

    (uma pena que não possamos mais ir ao cinematerna. Nunca fui pois, pegar dois ônibus com bebê e todo o kit, daqui de Viamão me parecia tão complicado e, agora que ele já está maiorzinho e é mais fácil de sair, já não podemos participar =((( )

    Beijo

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  4. Oi Aline!
    Essas situações já aconteceram pelo menos 1 vez com mães de filhos pequenos. Realmente a sociedade não dá muita bola pros bebês, como se eles tivessem que ficar em casa aos cuidados de babás 24h e passear somente em pracinhas. Faço diariamente o exercício de incluir a Anita nas nossas atividades e não é fácil.
    Outro detalhe importante que não apareceu no teu post: na grande maioria dos lugares que tem trocador, ele está no banheiro feminino, ou seja, parece que apenas mães trocam fraldas e que pais não podem sair sozinhos com seus filhos e filhas. Muitas pessoas vão pensar que isso não é importante, que já é muito ter trocador, mas penso que isso tem a ver com a visão machista do papel da mulher e do homem que nossa sociedade reafirma todos os dias.
    Beijos

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  5. Oi, Aline!
    É surpreendente como tomamos as conquistas alheias como direitos universais! Aqui, na Inglaterra, as cidades e até vilarejos são "buggy-friendly" e há rampas nas ruas, nos lugares públicos como bibliotecas e bancos e nos estabelecimentos comerciais... E, claro, nos ônibus! Não conseguia imaginar um passeio de carrinho com a minha filha num ônubus brasileiro! Mas não sabia (ou não tinha consciência - pois nunca passamos muito tempo em Porto para descobrir) que havia tantas outras complicações! Não saímos para comer fora com regularidade, porque a Yadleen não é tão quietinha quanto o Ben e porque gosto de comer a comida feita em casa :), mas nunca tivemos problemas em conseguir uma cadeirinha para crianças! Os fraldários também nunca foram escassos! Até nos inúmeros voos que já pegamos juntas desde que nasceu, sempre tinha uma "prancha" para deitar o bebê e trocá-lo. Sei que não é consolo e precisamos SIM reivindicar nossos direitos e exigir lugares apropriados para nossos filhos fazer cocô e xixi, mas aqui os pais leval aquele suporte para o vaso sanitário no carrinho! Eu acho a ideia genial na hora de tirar as fraldas sem estresse.
    Mães de todo o mundo - uni-vos!

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