domingo, 11 de novembro de 2012

Sobre saber crescer e deixar-se ser criança

 Vocês dizem:
- Cansa-nos ter de lidar com crianças.
Têm razão.
Vocês dizem ainda:
- Cansa-nos porque precisamos descer a seu nível de compreensão.
Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado.

Estão equivocados.
Não é isso que nos cansa, e sim, o fato de termos de nos elevar até alcançar o nível dos sentimentos das crianças.
Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão.
Para não machucá-las.

(Janusz Korczak em "Quando eu voltar a ser criança")

 


Há umas duas semanas, a  Revista Época apresentou como matéria de capa o assunto "Filhos e Felicidade". Li a matéria e devo dizer que me choca um pouco o fato de, o que está escrito ali, como costuma acontecer na maioria das revistas semanais desse tipo, representar o senso comum, o pensamento da maioria. O que se pode ler na matéria e, infelizmente, o que se encontra por aí é uma visão da maternidade/paternidade como um fardo, uma missão pesada, difícil e que envolve muitas perdas e poucos ganhos.

Eu tenho sorte de estar rodeada de pais e mães que curtem pra caramba a tarefa de ter filhos, que gostam de ter os pequenos por perto, que são amorosos, empáticos e conscientes. No entanto, o que tenho observado quando converso com pessoas de fora desses círculos - na pracinha, em festinhas, na fila do super e onde mais o assunto "filhos" venha à baila - é geralmente o discurso de sempre, muitas vezes acompanhado de uma cara de enfado: "Dá trabalho, né?" Oh, God...

Não é que eu não concorde que, sim, ter filhos dá trabalho. Não é só isso: ter filhos te deixa mais cansado, com menos grana ou menos gás para lutar pela carreira, entre outras coisas. Acho que a citada matéria não está mentindo, não. Porém, ter um filho é das coisas mais lindas e grandiosas que se pode fazer na vida. E como diz o tio do Peter Parker, alterego de nosso Homem Aranha, "grandes poderes trazem grandes responsabilidades". O que acontece, a meu ver, é que as pessoas, muitas vezes, não têm uma visão realista do que signifique ter um filho. Vê-se por aí muita gente achando que ter filho é brincar de boneca e que, sim, é possível tocar a vida sem muitas mudanças depois da chegada deles.

Sendo assim, penso que o que está em questão aqui são dois tópicos que, por mais paradoxais que pareçam, vêm juntos quando se fala do peso e das dificuldades que envolvem a maternidade/paternidade para a maioria dos viventes: o adultocentrismo e a infantilização dos adultos. Me explico.

Por um lado, o mundo é adultocêntrico. Tudo é feito por nós e para nós. Já parou para observar um quarto de bebê, daqueles que a mãe decora e prepara com todo o amor e carinho para seu rebento que vai chegar? Geralmente são feitos pelos e para os adultos, que em seus sonhos dourados imaginam um bebê dormindo ali uma noite toda, grato por possuir um quartinho tão lindo... Na vida real, o bebê não dá a mínima para toda a parafernália de berços, almofadas,quadrinhos, móbiles... o que ele queria mesmo era dormir sentindo o cheiro e o calor de sua mãe.
Voltemos ao mesmo quarto esse, o dos sonhos. Com que frequência, os brinquedos estão ao alcance da criança? De quem é o quarto mesmo?
E pensemos nos restaurantes. Quantos estão preparados para receber crianças? Ou, perguntando melhor, qual a porcentagem de adultos está preparada para dividir espaços com crianças? Sim, pois existem alguns restaurantes (poucos) que oferecem a opção de deixar os pequenos em um "espaço kids" ou algo do gênero. Eu não sei se isso me agrada. Parece mais uma forma de dizer "fiquem quietinhos aí no cantinho de vocês; não atrapalhem os adultos". E isso se estende a cinemas, teatros, museus...Até mesmo programações
dedicadas às crianças parecem muitas vezes não estar preparadas para recebê-las (outro dia levei o Benjamin em uma dessas e tive vontade de chorar, tamanho era o despreparo dos monitores). Em resumo, o mundo é totalmente regido por nossa lógica e nossos esquemas mentais e as crianças vivem à mercê de tais esquemas. Nos falta humildade para tentar ver o mundo pelo ponto de vista delas (ganharíamos muito com isso!). Além disso, muitas vezes tenho a impressão de que as pessoas não levam em consideração as singularidades das crianças, não levam a sério seus sentimentos, preferências, suas fraquezas e tristezas. É
como se seus sofrimentos possuíssem um status inferior ao dos adultos. É só lembrar da clássica frase "não foi nada", a qual (achamos nós!) serve de consolo para dores físicas e emocionais de nossas crianças...

Por outro lado, está a questão da infantilização dos adultos. E aqui o buraco é beeeeem mais embaixo. Não somente se vê por aí muitas mulheres infantilizadas com fantasias irreais a respeito da maternidade, ocupando-se do mais lindo enxoval, mas deixando de lado os movimentos intensos e muitas vezes perigosos que ocorrem em seu íntimo com a chegada de um filho, mas também homens infantilizados, que não estão preparados para ficar em segundo plano na vida de suas amadas, para segurar as pontas e cuidar da mulher que cuida do bebê. E, gente, quando um filho chega, tudo na vida do casal se movimenta, tudo se desestabiliza um pouco para depois se reacomodar - ou não - dependendo do modo como os dois, em conjunto, trabalham as questões que aparecem. Não tenho condições de fazer uma análise muito aprofundada disso (leiam Laura Gutman, leiam Laura Gutman!), mas acredito que esse casal infantilizado é uma combinação bombástica e o prenúncio de uma experiência não muito feliz de paternidade/maternidade. Pois o bebê esse que chega desestabilizando tudo, bagunçando tudo, exigindo demais está a dois passos de se tornar um peso que este casal não estava preparado para suportar, fazendo com que, quase sem querer, sem perceber, dentro de alguns meses eles andem por aí reproduzindo o tal discurso de fila de super do qual falei acima, abraçando todas as ideias que surjam no mercado que facilitem a vida deles (vide treinamentos de sono, mamadeiras, bouncers e etcéteras...) e culpando o filho por não se darem mais beijo na boca. (Será que eles querem tanto assim se beijar? Pois quando a gente quer a gente dá um jeito, né?)

Eu não sei muito bem qual é a solução para esses casais ou para mudar tudo isso. Eu realmente gostaria de saber e gostaria de viver em um mundo onde a infância fosse mais respeitada, apreciada e levada em consideração. Mas o que posso fazer é falar de nossa experiência pessoal. O Abramo e eu estamos juntos há 14 anos. Felizmente, somos um casal apaixonado que hoje em dia adicionou a esta paixão dois bebês,um que já chegou e outro que vem chegando. E tudo isso é uma construção conjunta, que exige manter-se com o coração aberto e com toda a disposição a se conectar, de forma muito intensa e verdadeira com o outro. E o outro, aqui, pode ser a mulher, o homem, o bebê, os três juntos, dependendo do momento e da situação. Ter um filho e fazer disso uma experiência feliz implica, de antemão, conscientizar-se das mudanças e desafios que virão pela frente. Implica saber que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, mas tudo bem. Se a gente se entregar à experiência, se a gente parar de brigar com o fato de que não mais dormiremos como antes ou sairemos à noite ou teremos intensa vida cultural, social, sexual, todo o processo pode ser levado com mais leveza. E não estou afirmando que se abre mão de tudo e que o casal não sai nem transa mais, não é isso. Mas as coisas ficam diferentes e isso é fato. E esse diferente pode ser bom, muito bom. A gente pode se reapaixonar pela pessoa que está ao nosso lado pois se apresenta para nós uma nova dimensão dela: a de pai ou de mãe. E esse processo pode ser algo encantador quando percebemos, por exemplo, que aquele cara que conquistou nosso coração há tempos atrás não só é divertido, beija bem e nos faz rir, como também é um pai e tanto, que sabe compreender nossas loucuras de puérpera, nos proteger e cuidar da cria melhor que ninguém. Esse tipo de readequação da vida de casal à vida de família é uma etapa importante para melhorar um pouco este cenário do qual falei e tornar a experiência de paternidade/maternidade mais prazerosa, gostosa e verdadeira. E assim, com o coração aberto e com expectativas mais realistas a respeito do que está por vir, estaremos também mais aptos a nos voltar mais e mais para nossas crianças, incluindo-as realmente em nossas vidas e valorizando-as, pois elas necessitam que estejamos dispostos a ouvi-las, compreendê-las e acreditar nelas para que elas também acreditem, e no futuro tudo seja diferente... e melhor.


P.S.: Para comprovar a minha tese de que tudo muda, eu quero contar que delineei este texto há duas semanas, quando a tal matéria foi publicada e eu a li. Mas só consegui sentar para escrever hoje... Isso por causa do Benjamin e do Gael? Siiiiiim! E não existe motivo melhor e mais nobre para adiar o que quer que seja, não acham?





3 comentários:

  1. Gosto da visão da Thais Godinho (www.vidaorganizada) que diz que quando falamos que algo "dá trabalho" é porque é um sacrifício, porque não queremos fazer aquilo. E acho que é isso: ter filhos dá trabalho, já ser mãe/ser pai é um ofício maravilhoso, difícil, transformar e desafiador. Felizes aqueles que entendem a diferença.

    Sabe que por aqui o efeito do Benjamin foi contrário? Ele me deu muito mais gás para correr atrás da minha vida profissional, porque para ficar com ele tenho que fazer virar dinheiro trabalhando de casa, então dá-lhe correria para fazer isso! No começo eu pensava que era "POR ELE", hoje eu vejo que é "GRAÇAS A ELE". Trabalhar em casa, por conta, é um sonho antigo que tenho conseguido tornar realidade pelo gás novo que ele me trouxe. Por todas as mudanças interiores que ser mãe me proporcionou.

    Ou seja, tudo depende dos pais, das prioridades. Benjamin vai ser a minha por um tempo (talvez para sempre rsrs) e isso não é sacrifício, para mim isso é ser mãe, é assumir a responsabilidade que me foi confiada (e que eu quis, quis muito!)

    Outro ponto que percebi ser bem diferente são os gastos, não achei que ter um filho seja tão "caro" quanto se costuma falar por ai. Claro que tem gasto, e nem quero pensar quando começar na escola.

    Aff, comentário enorme, desculpe! Era só para dizer: ótimo texto! rsrs Beijos...

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  2. Maravilhoso!
    É isso mesmo, Aline. Eu me sinto como vc e não tenho a sorte de contar com famílias que pensem semelhante a mim ou ao marido por perto. Este final de semana fomos a uma festa de aniversário da filha de um colega de trabalho e eu, sentada numa mesa com as outras mulheres, queria fugir dali. Lá pelas tantas não me aguentei quando uma moça (que ainda não tem filhos mas que acha que sabe educar uma criança como ninguém, sabe o tipinho? já fui assim, hahaha) falou como se fosse a oitava maravilha do mundo a cunhada bater no sobrinho de cinta no banho porque o menino foi resmungando para lá (não queria tomar banho pq estava brincando). Gente! Eu me contorci toda na cadeira e perguntei o que ela acharia de levar umas cintadas do marido se ele a mandasse tomar banho e ela não quisesse...ela ficou num vermelhão e disse que revidaria, ao que eu completei, pois é, vc é adulta, imagina uma criança como se sente ao apanhar dessa maneira da mãe, e nem ter forças para se defender. Enfim...isso é senso comum, não me enquadro (mais) nele e dói ver que a maioria pensa assim. O que me deixa mais esperançosa é saber que essas mulheres, que ainda não são mães, se o forem, terão uma oportunidade ímpar de rever conceitos e se deixarem transformar pela maternidade. É minha esperança para um mundo melhor!
    Adorei a citação do Janus, tenho esse livro tb. Eu o li a primeira vez aos 10 anos de idade e agora como mãe. Eu me lembro quando criança de querer saber quem era esse Janus, se ele tinha mesmo virado criança, pq ele sabia muito bem como eu me sentia!
    Beijos prá vcs!
    Nine

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  3. Aline, parabéns querida!
    Texto lindo, leve cheio de amor e clareza do que é a maternidade/paternidade consciente.
    Escreves muito bem e teu discurso é muito mais tocante pois discorres com a leveza de quem escolheu ser mãe e o é de coração.
    Falas de realidade, dia a dia e o que é na pratica a vida de mãe e pai que criam suas crias com amor, carinho e respeito a inteireza e a beleza de seus pequenos.
    Tem muita gente teorizando sobre a pratica de cuidados com os filhos, podia escrever um livro Aline já que tens esta capacidade maravilhosa de falar com a alma.
    Amei!!!
    Zezé

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