Relato de parto do Gael


Como nasceu Gael Pereira de Barros

Minha bisavó era uma mulher de ditados. Ela sempre dizia que os filhos são como os dedos das mãos: nenhum é igual ao outro.
Pude comprovar a verdade deste dito já na gestação de meus pequenos. Este relato diz respeito ao Gael, meu caçula, mas é impossível para mim não fazer nenhuma remissão ao meu primogênito, Benjamin, enquanto escrevo isso. Meus pequenos – razões de minha vida, pedaços de mim – vieram para me ensinar muitas coisas e para, desde a gestação, proporcionar-me experiências diversas e enriquecedoras.
Quando gestei Benjamin, eu era toda meditação e yoga. Voltei-me para meu interior, para questões da alma. Tudo era suave. A gestação foi totalmente tranqüila, leve. Não experimentei dores – nem físicas, nem espirituais. O parto foi lindo e transformador e, naquele momento, fiquei muito orgulhosa e satisfeita de tudo, da maneira como foi.
Onze meses depois do nascimento de Benjamin, descobri-me grávida novamente. Alegria, alegria! Uma nova gestação, um novo serzinho que viria para nós. Logo de início, ele já veio dar seu recado: eu,vegetariana há quase 5 anos, senti uma vontade muito grande de comer carne, a qual eu batizei de “siricotico carnívoro”. Era meu bebê me colocando em contato com os prazeres da vida, com as questões mais imediatas, com um outro ditado da minha bisa, que não me saia da cabeça na época: “o que é de gosto, são regalos da vida”.
A palavra para mim naquele momento era urgência, vontade de viver o momento, me permitir, sentir o sol, o vento, a chuva, a grama sob os pés, o perfume das flores, o beijo de meu amado. Gestei Gael muito mais voltada para fora, para a vida que estava ali, toda à minha disposição.
E a tal urgência que me movia fez com que eu colocasse em prática um projeto que idealizava há algum tempo: no fim do primeiro trimestre de gestação fiz o Curso de Formação de Doulas, promovido pela ANDO. Foram quatro dias muito intensos, nos quais, além de aprender muito e visualizar algo que pretendo fazer no futuro, pude reavaliar o parto de Benjamin e planejar algo diferente para o parto do Gael.
No parto de Benjamin, minha prioridade era de que tudo acontecesse de forma natural e respeitosa. E assim foi. Procedimentos como monitoramento fetal, enema, tricotomia e episiotomia não foram feitos. Tive liberdade de movimentos. Pude caminhar, comer, usar o chuveiro. Tive meu tão sonhado parto de cócoras. Foi maravilhoso! Mas agora eu queria mais.
Durante o Curso de Doulas, muito se insistiu no fato de que uma mulher parindo, quando deixada em paz e em silêncio, sabe o que fazer. E foi essa idéia que ficou martelando em minha cabeça, foi essa idéia que eu comprei. Queria silêncio, queria ouvir meu corpo e fazer o que ele mandasse. Em meu primeiro parto, as palavras de incentivo foram essenciais, mas sinto que fiquei um pouco passiva, na dependência de tais palavras e de que me dissessem o que fazer. Desta vez pretendia deixar meu corpo trabalhar, curtindo cada contração, concentrando-me na respiração e “me ouvindo”.

Pois bem, passemos então à chegada de Gael. Minha DPP era 18 de janeiro de 2013, mas o nosso menino já estava encaixado e muito a fim de nascer já no final de novembro, quando minha obstetra prescreveu que eu fizesse repouso moderado (outra diferença do mano, que não estava com a mínima pressa de sair e nasceu com 41 semanas de gestação).
No dia 27 de dezembro de 2012, acordei meio enjoada. Vomitei um pouco e vi que estava perdendo o tampão mucoso. Opa! Algo está para acontecer, pensei. Chamei então minha sogra, que mora em outra cidade, para vir para nossa casa, já que ela ficaria com o Benjamin enquanto eu fosse para o hospital.
Passei o dia de sexta-feira sentindo algumas contrações, mas tentei, tanto quanto possível, passar o dia normalmente: fui ao supermercado, fiz almoço, passeei na rua. Fiquei sempre em contato com a Zezé, minhadoula, e com a Ana Cláudia, obstetra, deixando as duas de sobreaviso. No início da noite tomei meu banho e quis ficar um pouco brincando com o Benjamin, eram os últimos momentos de “só nós dois”. Quando Benjamin dormiu, me deitei também. Colocamos ele no outro quarto com minha sogra, pois entraria em trabalho de parto em breve e não queria que ele acordasse com o barulho.
Aproximadamente às 23 horas, as contrações começaram a ocorrer com regularidade. No entanto, estava tudo tão tranqüilo e contornável que Abramo e eu achávamos que ainda não era o trabalho de parto pra valer, que ainda ia demorar ou, até, cessar para continuar depois. Ficamos só nós dois, em nosso quarto. Eu vocalizava, pedia para o Abramo massagear minha lombar. Devo ter ido para o chuveiro umas 5 ou 6 vezes (e como alivia!). Abramo me doulou, eu me auto-doulei (se é que isto é possível...) até às 2h30min, quando pedi que ele chamasse a Zezé, pois senti que estava precisando dela. Ela chegou em poucos minutos e eu estava no chuveiro, meio queixosa, já começando a sentir que não ia conseguir, pois começava a doer bastante. Ela me abraçou com ternura, me amparou, uma verdadeira mãe de parto. Lembro dela dizendo para o Abramo: “É melhor avisar a Ana para ir para o hospital.” “Daqui a pouco?”, perguntou o Abramo. “Não. Agora.”,ela respondeu. Daquele momento até nossa chegada no hospital, eu só me lembro da força que tive que fazer para o Gael não sair. Eu conversava com ele, pedia: “Filho, espera um pouco.” A Zezé me abraçava, me consolava, totalmente tranqüila, difundindo ocitocina, como fazem as doulas.
O Abramo também, conseguiu manter a serenidade a despeito de meus gritos no banco de trás do carro. Chegamos ao Hospital Divina Providência e, ao contrário da outra vez, em que eu neguei a cadeira de rodas, pois “estava parindo, não estava doente”, agora eu a aceitei, sentia que precisava chegar rápido a algum lugar onde fosse seguro deixar meu pequeno nascer. Eu gritava: “Eu quero a Anaaaa!”. De repente, ela apareceu, acho que estava chegando junto com a gente: “Tô aqui!”, ela disse. Não tenho como não rir ao lembrar que, ao chegar à sala de parto, totalmente na Partolândia, arranquei o vestido e fui correndo me sentar no vaso sanitário. A Zezé me perguntou: “O que tu vai fazer?” “Xixi”, respondi. E comecei a fazer força. Então a Zezé viu que, se ela deixasse, eu ia parir ali mesmo e tratou de me dissuadir da ideia. A partir de então, as coisas aconteceram mais ou menos assim:
Deitei na maca no momento em que Abramo estava saindo na porta da sala para ir à recepção com a enfermeira providenciar minha baixa. Ana, sem nem precisar me examinar, disse para Abramo: “Volta, volta, volta!”. A enfermeira disse que ele tinha que ir encaminhar os papeis, blábláblá... Minha obstetra respondeu: “Tu não tá entendendo. Este bebê vai nascer em menos de 10 minutos. Se ele for, não vai ver o filho nascer.”
O Abramo chegou perto da maca e disse (sabendo do que estava falando): “Tá coroando!” A Ana me pergunta: “Quer ficar de cócoras?” Eu respondo: “Quero ficar aqui!”
Então, faço força uma vez e sinto a cabecinha dele saindo. Mais uma força: saem seus ombrinhos e seu corpinho desliza para fora do meu. Aparo-o com minhas próprias mãos e coloco sobre minha barriga. Calor gostoso, corpo a corpo, coberto de vérnix, cheirinho de bicho. Cheirinho gostoso e inesquecível. Olho para o relógio. Eram 04h03min. Ele chegou: Gael Pereira de Barros, 3,3 Kg, 50,5 cm, 36 semanas e 4 dias de gestação. Meu menino intenso e apaixonante, desde o primeiro instante. Parto rápido, tsunâmico, como bem definiu nossa querida Zezé. Ficamos todos ali, atônitos, emocionados. Eu estava maravilhada. Tinha sido diferente do que eu tinha planejado, mas bem do jeito que eu queria.
“Quero de novo, Zezé.”
“É... parir vicia”, ela me responde.

3 comentários:

  1. Emocionante, não tem como não chorar! Lindo relato. Parabéns pela sorte e pela saúde de tê-los.

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  2. Que legal Aline!!! Muito bacana seu relato!!!E parabéns pelos meninões e pelos partos!!! :) Beijos Rayana! :)

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  3. Que lindo, Aline! Tive a mesma sensação nesse segundo parto, que eu queria me ouvir, me perceber... e tb foi assim.
    O "problema" desses partos rápidos, é isso, né? Essa vontade de quero mais! Eu tb quero mais, e mais, e mais... hahhaah
    Beijão

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