Relato de parto do Benjamin




Parir é passar de um estágio a outro (do mundo concreto ao sutil). É um rompimento espiritual. E, como todo rompimento, provoca dor. O parto não é uma enfermidade a ser curada. É uma passagem para outra dimensão.

(Laura Gutman, em “A maternidade e o encontro com a própria sombra”)


Em 20 de maio, aproximadamente ao meio dia, senti a primeira contração. Estava voltando da consulta com minha ginecologista e, ao descer do ônibus no Centro de Porto Alegre, senti uma contração mais dolorida do que as contrações que vinha tendo até então, as chamadas contrações preparatórias. Sabia que a hora estava chegando, uma vez que completaria 41 semanas de gestação no dia seguinte.
Naquele momento, começaram a vir contrações de 10 em 10 minutos mais ou menos. Continuei caminhando, curtindo cada uma delas, fui ao supermercado comprar moranga para fazer um creme, pois sabia que precisaria comer algo leve, gostoso, saudável e quente ao longo do processo que acabara de se iniciar. Comprei também um suco de abacaxi, merengues e alguns legumes para servir com o couscous marroquino que faria para o almoço. Cheguei em casa e cozinhei em meio às contrações. A frequência aumentou, e quando Abramo chegou para almoçar estavam acontecendo de 5 em 5 minutos. Mandei uma mensagem para minha médica e uma para minha minha doula para ficarem de sobreaviso. Almoçamos achando graça daquilo tudo, muito felizes por sentirmos a proximidade da chegada de nosso pequeno.
Falei com a Fabi, minha doula, por telefone, e ela, “ouvindo” as contrações, viu que ainda não era o trabalho de parto propriamente dito que estava acontecendo, mas nós duas sabíamos que meu corpo estava me avisando que a hora estava próxima.
Ao longo daquela tarde e noite, as contrações iam e vinham, às vezes com mais, às vezes com menos frequência. Acabamos de arrumar nossa mochila para levar para o hospital e eu deixei separado tudo que iríamos precisar.
Feliz, pois a chegada de meu filho estava próxima, muito próxima.
Passei o tempo numa boa, comendo coisas leves, bebendo o suquinho, descansando tanto quanto possível. No início da noite decidi que precisava ficar um pouco sozinha para me conectar com meu filho e me munir de energia boa. Meditei, respirei, mentalizei o parto que eu desejava ter, escrevi. Depois tomei um banho demorado, tomei uma tigela de sopa, falei mais uma vez com minha doula, por telefone, e, mais ou menos às 21 horas, deitei-me para tentar dormir um pouco, pois as contrações estavam bem espaçadas. Descansei um pouco, apesar de não ter conseguido dormir profundamente.
Concentrada nas contrações.

 Já era quase 1 hora da manhã quando entrei em “franco trabalho de parto”, como se diz. As contrações ficaram mais fortes e frequentes, dava para prever a chegada delas. Decidimos esperar um pouco antes de avisar a Fabi, primeiro para ter certeza de que era mesmo “A” hora e, segundo, porque considerávamos que aquele momento devia ser vivido somente por nós dois. Ficamos deitados, abraçados, e Abramo, muito carinhoso, me lembrava a cada contração: “Ela tem um início, um meio e um fim”. Aquilo era quase um mantra, que me ajudava a não “brigar” com a contração, a aceitá-la e agradecer por ela, pois cada contração que passava significava que estava mais próximo o momento de ter Benjamin em meus braços. Passamos mais ou menos uma hora e meia assim, então decidi que precisava de minha doula. Abramo ligou para a Fabi e, em menos de meia hora, ela chegou em nossa casa. Levou-me para o chuveiro, fiquei sentada em um banquinho com a água quente escorrendo sobre o corpo, o que aliviou bastante a dor. Estava difícil encontrar uma posição confortável, tentamos deitada, sentada no sofá, mas eu acabei preferindo sentar na cadeira de balanço. Tinha gravado um CD para ouvir durante o trabalho de parto e pedi que Abramo colocasse a primeira canção “Sabemos Parir”, de Rosa Zaragoza, e que deixasse repetindo, pois era só aquela que queria ouvir. Cantei e a Fabi cantou comigo. Fiquei ali concentrada e completamente voltada para dentro de mim mesma por um tempo, não sei quanto, não tenho ideia de quantas vezes a música tocou. O Abramo me alcançava suco ou água quando eu pedia, lembro-me de sentir sede. Levantei-me e lembro da Fabi massageando minhas costas e de, depois disso, ter me abraçado no Abramo, que me amparou e me embalou com doçura.
Amparo, amor, proteção.
Fui para o chuveiro novamente. Senti-me enjoada e vomitei. A Fabi me tranquilizava, me amparava, me fazia lembrar que tudo aquilo fazia parte do processo que eu estava vivendo. As contrações ficavam mais e mais intensas. A Fabi decidiu telefonar para a Ana Cláudia, minha obstetra, pois sentia que deveríamos ir para o Hospital. O Abramo pegou todas as coisas, que, por sorte, tinha deixado separadas, pois não conseguia pensar em nada, para ser bem franca existem vários detalhes dos quais não me lembro direito, meu estado de consciência estava realmente alterado, estava na “Partolândia”.
Fabi, minha doula. Auxílio imprescindível.
Tive dificuldades para descer as escadas de meu prédio, pois as contrações vinham “coladas” uma na outra, eu tinha que me apoiar na parede e esperar passar. Na ida até o hospital eu tentava me concentrar, me focar na respiração, e parece que esta etapa passou muito rápido, ainda que o hospital fosse longe da minha casa. Chegamos lá aproximadamente às 6 horas, o Abramo ficou providenciando minha internação e a Fabi subiu comigo. Fomos para a sala de parto, tirei minha roupa, coloquei aquela roupa do hospital e, em seguida, a Ana Cláudia chegou. Conversamos um pouco, ela, eu e a Fabi, e eu quis ir ao banheiro, senti uma coisa diferente, uma água escorrendo entre as pernas e me assustei. A Fabi: “Calma! Foi só a bolsa que rompeu”.
Àquelas alturas lembro de estar muito cansada, já estava pensando em pedir para a Ana uma analgesia, então veio o exame de toque. A Ana me disse: “Vai vendo como é que tu queres ficar, já são 9 cm de dilatação.” Fiquei muito feliz, lembro-me de ter pensado (ou dito, já nem sei mais): “Ah! Se eu cheguei até aqui sem nada, agora vou até o fim sem precisar de nada, meu filhote vai nascer naturalmente.”
O Abramo voltou e eu decidi que queria ficar de cócoras, pois não conseguia nem imaginar ficar deitada. O Abramo sentou em uma poltrona e ficou me amparando, de frente para ele. A Ana ajeitou os lençóis no chão para amparar o Benjamin, e eu quis ficar nua. Sentia a necessidade cada vez mais intensa de fazer força, e gritava bastante. Sentia como se aquele grito fosse um grito ancestral, as dores de meu parto eram as dores de minha mãe, de minha avó, de minha bisavó... Era a força feminina se manifestando.
Eu alternava entre ficar de cócoras e de pé, sentia muita dificuldade de ficar parada numa única posição. A Fabi dizia: “Aline, lembra do Benjamin. Tu sabes o que está acontecendo; ele, não.” Aquelas palavras me colocavam em conexão com meu filho, pensava nele, mentalizava seu pequeno corpinho esforçando-se para nascer e conscientizava-me que estávamos fazendo um trabalho conjunto, reforçador da simbiose que se iniciara durante a gravidez, que aumentou após o nascimento e que se manterá ainda por um longo período de nossas vidas.
Não sei quanto tempo se passou até que a Ana disse que Benjamin estava “coroando”. Com minha mão pude sentir sua cabecinha, seus cabelinhos. Aquilo era o máximo!
O Abramo me segurava o tempo todo, com todo o carinho. A Fabi e a Ana me incentivavam. Lembro da Ana Cláudia dizendo: “Força, força, força. Sem parar, sem parar, sem parar.”
Eu fazia MUITA força.
Até então, estava de cócoras de costas para Ana. Neste momento, fiquei de frente, com Abramo me segurando pelos braços. Meu instinto dizia que era assim que Benjamin nasceria.
De repente olhei para o lado e vi que algumas enfermeiras estavam na sala de parto. Mas elas não estavam ali para realizar nenhum procedimento, elas estavam assistindo a meu parto. Estavam torcendo por mim. “Vai Aline! Força, Aline!”
Exceto pela presença masculina de Abramo (presença essencial, diga-se de passagem), eu tinha ali minha “Tenda Vermelha”. Mulheres ao meu redor me amparando e incentivando. Benjamin estava vindo. Força, força, Aline. Sem parar, sem parar, sem parar. O corpinho de Benjamin deslizou para fora de meu corpo. Ana Cláudia o amparou e olhei bem nos olhinhos dele. Ele não chorou, simplesmente me olhou, com os olhos bem abertos e uma expressão muito séria. “Obrigada, meu filho, por ter vindo!” Ana colocou-o no meu colo, coisa mais linda e amada do mundo. Abramo e eu estávamos muito emocionados. Ela esperou um pouco para cortar o cordão, assim a transição entre respirar através da placenta e respirar pelos próprios pulmões se dá de forma mais suave. Eram 8 horas e 40 minutos de 21 de maio de 2011, um lindo sábado de sol.
As enfermeiras e a pediatra vieram pegar Benjamin para os procedimentos-padrão do hospital. Abramo foi com ele, não queríamos desgrudar do pequeno.
Ficamos conversando e rindo, Ana, Fabi e eu, muito felizes, enquanto eu expulsava a placenta. Quando ela saiu, quis vê-la. Toquei nela e agradeci por ter nutrido meu filhote dentro de meu ventre.
Sentia-me realizada, como nunca em minha vida tinha me sentido. Foi uma experiência linda, intensa e de superação. Quando tudo acabou, tinha a sensação de ser a pessoa mais forte do mundo. Se tinha conseguido passar por aquela experiência, poderia enfrentar qualquer adversidade daquele momento em diante.
E o melhor de tudo é que, junto com meu Benjamin, pari também uma nova versão de mim mesma, mais amorosa, mais empoderada, mais confiante. É como se eu tivesse nascido para ser mãe dele.
Hoje sou uma mulher muito feliz e realizada por ter buscado um parto natural e humanizado, por ter trazido meu Benjamin, o filho da felicidade, ao mundo de modo tranquilo, amoroso e respeitoso como o nascimento de uma criança deve ser.

Gratidão ao Poder Divino, às Deusas e ao Sagrado Feminino, ao meu corpo forte e capaz e às pessoas maravilhosas que escolhi que estivessem a meu lado neste momento tão especial: Abramo, amor desta e de outras vidas; Fabi Panassol, minha doula e mãe de parto, e Ana Cláudia Codesso, obstetra e amiga, profissional sensível e idealista que trabalha para que os bebês venham ao mundo com carinho e suavidade.
E gratidão, principalmente, a Benjamin, que me escolheu para ser sua mãe.
Obrigada, filho, por ter vindo pra nós!